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Jânio, Gagarin e Guillén

Mi patria es dulce por fuera,y muy amarga por dentro; mi patria es dulce por fuera, con su verde primavera, con su verde primavera, …

Mi patria es dulce por fuera,

y muy amarga por dentro;

mi patria es dulce por fuera,

con su verde primavera,

con su verde primavera,

y un sol de hiel en el centro

Nicolás Guillén (El son entero)

Na minha crônica anterior, registrando a contradição do anticomunista Jânio Quadros, ressaltei suas ações progressistas e escrevi: “A quem se supunha estadista não faltou a miopia reveladora de origens tradicionais, não se pejando agir como um delegado de costumes, proibindo as rinhas de galo, o uso de biquíni em desfiles de beleza e restringindo as corridas de cavalo aos finais de semana”.

Meu amigo José Monserrat Filho, jornalista, publicitário e advogado especialista em Direito Espacial, em e-mail, envia-me artigo dele publicado na revista Ciência Hoje deste mês, no qual lembra que o astronauta soviético Yuri Gagarin  é exemplo de posturas progressistas do então presidente que, certamente, não confessara à União Democrática Nacional (UDN) algumas de suas ideias. Eis parte do artigo:

“Por que, a 3 de agosto de 1961, 22 dias antes de renunciar, o então presidente Jânio Quadros concedeu a Yuri Gagarin a Ordem do Cruzeiro do Sul, a maior condecoração brasileira? Isso reforçava sua política externa independente, radicalmente diferente da de seu antecessor, Juscelino Kubitschek. Qual o outro lado da medalha concedida ao cosmonauta soviético, que custaria tão caro a Jânio? Relações com todos os países, em especial os da área socialista e da África; novas opções para as exportações brasileiras; restabelecimento de relações diplomáticas e comerciais com a China e a então União Soviética (URSS); defesa da autodeterminação dos povos; condenação às intervenções estrangeiras, inclusive o ataque americano a Cuba em abril de 1961; articulação com a Argentina de resistência a possíveis intervenções norte-americanas na América Latina; defesa da independência de Angola e Moçambique, à época colônias de Portugal; oposição ao regime racista do apartheid na África do Sul; simpatia pelo Movimento dos Países Não Alinhados, criado na Conferência de Bandung, Indonésia, em 1955, e reunido na sua Primeira Cúpula em 1961, em Belgrado, pregando nova ordem global contra a divisão do mundo em dois blocos; etc.”

Esses atos foram sublinhados pela condecoração de Jânio a Che Guevara, em 19 de abril de 1961, e bateram forte no fígado da UDN e de Carlos Lacerda, um de seus líderes, cuja trajetória política foi de permanente apoio aos interesses dos EUA.

Voltando à Legalidade, guardo dela algumas reminiscências.

Talvez por haver presidido por mais tempo a assembleia permanente do Comitê de Artistas e Intelectuais Pró-Legalidade, ao término do movimento recebi um mimo de um dos seus mais ativos participantes, o grande artista plástico Xico Stockinger, inda com plena audição: uma megacaricatura minha, a cores, numa folha de cartolina, fardado como Ho Chi Minh, o revolucionário vietnamita.

Outra memória é de um cubano, que eu conhecera casado no Rio com atriz minha amiga, que, às vezes, parecia minha sombra. Eu desconfiava ser ele um agente de Cuba, mas moita. Tempos depois, ele precisou entrar em contato com o Palácio Piratini e teve que abrir sua condição para comigo. Meses depois, já encerrado o episódio Legalidade, fui o intermediário de Nicolás Guillén, o grande poeta, então presidente da União Nacional de Escritores e Artistas de Cuba, para uma reunião com o governador Leonel Brizola. Era uma consulta de Fidel para saber se havia interesse na abertura de um consulado cubano em Porto Alegre. Resposta de Brizola:  jamais agora!

Pimenta era um gaúcho que emigrara para o Norte do Paraná, na febre do plantio de café. Assim que começou o movimento exigindo a posse legal de João Goulart, ele se mandou de Maringá e foi presença quase permanente no Teatro de Equipe. No meio de uma assembleia que eu presidia, ele pediu licença e deu seu recado de quem estava ansioso para pegar em armas:

– Mas bah, essa revolução parece promissória de cigano, não acontece nunca!

Inté.

Vitrine (Comentários sobre a coluna anterior)

Mestre Mário. Com atraso (Legalidade), meu comentário vem na forma de pergunta: será que a moçada de hoje terá histórias tão ricas e saborosas como esta para contar? Onde foi parar a força e ideologia que movia sua geração e também a de meu pai? Escondidos atrás da tela dos computadores e celulares, essa geração virtual, de cultura abrangente, todavia rasa, vai para onde? Abração! Carlos Eduardo (Cunha), Professor universitário, Florianópolis.

E o Udenismo ainda existe e persiste em nossa sociedade… Trocou de sigla, de nome, se moderniza, usa o politicamente correto, que deveria ser chamado de “reacionariamente aceito”. Abração, GG (Guto Graça) publicitário, Rio.

Marião,

Contando a história de sua peça, você falou do Jânio. Este ano se comemoram os 50 anos do voo espacial do Gagarin (12 de abril de 1961). O Brasil foi um dos primeiros países visitados pelo “Pioneiro do Cosmos”, que recebeu do então  presidente Jânio Quadros a Medalha do Cruzeiro do Sul, a mais alta comenda brasileira,entregue pelo próprio Jânio. Envio-lhe o texto a respeito que escrevi para a revista Ciência Hoje, em edição que está nas bancas. É um outro aspecto do panorama daquela época que nos tocou viver e que sua peça reflete (e discute) tão bem. Abração, José Monserrat Filho, Rio.

Autor

Mario de Almeida

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