No ensaio “Arte de injuriar”, no volume História de la eternidad, Jorge Luis Borges rastreia as principais formas de ataques usadas em críticas que deveriam ser arrasadoras. No fundo, a coisa se resume a ofensas brilhantes que tratam de nos distrair da falta de argumentos. O que Borges não estudou foram as respostas das pessoas atacadas. Talvez nem fosse necessário: a maioria responde no mesmo nível. Mas ele cita um caso: a réplica, absolutamente esplêndida, de um tal Handerson, falecido em Oxford por 1787, anotada por De Quincey. Durante uma discussão teológica ou literária, atiraram um copo de vinho na cara do tal Handerson. Sem perder a calma, ele disse: “Isto, senhor, é uma digressão. Espero seu argumento”. Não se sabe mais nada do Handerson. Mas para Borges sua frase é imortalidade suficiente.
Os adoradores de Maomé revidaram as piadas com outras mais engenhosas e engraçadas? Não, mandaram bala.
Mandar balas é uma digressão. O mundo espera os argumentos. Mas vai esperar sentado, claro – ser crente é, por definição, dispensar a necessidade de argumentos e provas. Quem é Deus? Deus é aquele que é.
Mas é bom não esquecer que a primeira vítima foi o policial Ahmed Merabet, muçulmano, que fazia a segurança do jornal Charlie Hebdo. Mais: entre as vítimas está o revisor, Mustapha Ourrad. Claro, claro, nem todo muçulmano adora Maomé, nem todo muçulmano que adora Maomé defende o terrorismo, exatamente como nem todo ocidental acredita em Deus ou, se acredita, nem todo ocidental faz o diabo em nome de Deus. Noto isso por motivos singelos: a mistura de indignação, sangue quente e burrice pode ser fatal, pode nos levar a pensar e agir em preto e branco como aqueles que acusamos de pensar e agir em preto e branco.
Que merda, hein?
O mundo indo pra cucuia e a gente às voltas com superstições tribais.
Respeito e crenças
Duas e três, alguém me diz que devemos respeitar as crenças das pessoas. É dureza, as pessoas acreditam nas coisas mais loucas e idiotas. Vide a supremacia ariana, a liberdade de mercado, a criação do mundo em seis dias, a melhor idade, duplas caipiras, cachorros pequineses, o sorriso da Julia Roberts, costeletas, calça boca de sino. Chega, ou quer mais?
Desrespeitos e crenças
Se rimos de católicos, macumbeiros, islamitas, cientologistas ou qualquer outro crente, corremos perigo de excomunhão, um despacho na encruzilhada, a cabeça a prêmio ou perseguições encarniçadas. É, em geral os crentes não respeitam nenhuma crença que não seja gêmea da deles, muito menos a descrença, e se acham no direito de retalhar inclusive fisicamente. Isso não é bonito, ainda mais em gente com a pretensão de representar o bem, com maiúscula ainda por cima.
Revide
Nunca vi nenhuma panelinha de humoristas ameaçando quebrar a cara de crentes nem mesmo quando acharam a piada fraca.
Ditaduras e humoristas
Aqui no Brasil, os caras do Pasquim pegaram um mês, um mês e pouco de cana, mas não levaram pau. Não foi porque os milicos eram bonzinhos. É que os caras eram muito conhecidos.
Essa prisão teve algo inédito. Em geral os milicos inventavam qualquer pretexto idiota pra prender e torturar. Dessa vez prenderam antes e tentaram achar o pretexto depois. Entre outras coisas espantosas, queriam saber onde estava guardado o ouro de Moscou. Luiz Carlos Maciel, ao ser interrogado, disse que não sabia e que logo que saísse da prisão ia chamar os colegas às falas pra saber onde estava a parte dele.
Uma vez, os milicos jogaram uma bomba na redação do Pasquim. Ninguém se feriu. A bomba não explodiu. Sorte? Lembre-se que a bomba do Rio-Centro explodiu no colo do terrorista. Acho que alguém faltou à aula, na escolinha de terrorismo, no dia em que ensinaram a fazer bombas.
Na Argentina os milicos sequestraram vários humoristas, que foram torturados antes de desaparecerem. E, pelo que sei, esses milicos não eram muçulmanos. É que as crenças e tacanhices variam mas a seriedade é a mesma.

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