É muito raro encontrar, mas há quem não goste de nenhum gênero musical. Tão escassos são os exemplos que se tornou famosa a aversão que nutria por música um dos mais extraordinários poetas da língua portuguesa, o brasileiro João Cabral de Melo Neto. “Minha música vem da música de um poeta João / que não gosta de música”, canta Caetano Veloso.
Mas o caso de João Cabral era especialíssimo. Seu desprezo resultava de um trauma, de uma doença e de uma concepção radical sobre os poetas e a produção poética.
Em primeiro lugar, Cabral ficou traumatizado na infância, quando estudava num internato de Recife, pela obrigação de ir à igreja para ouvir canto sacro uma vez por semana. Em segundo lugar, ele sofria de amusia – doença que o incapacitava de compreender as relações entre sons e melodias e que, em conseqüência, tornava “uma sucessão de ruídos sem sentido” qualquer música que ouvisse. Por último, o poeta detestava os versos confessionais cantados na música popular brasileira. Dizia que os autores, inclusive seu amigo Vinícius de Moraes, expunham diretamente e assim exploravam emoções próprias – saudade, tristeza, melancolia… -, enquanto a obrigação dos poetas era criar poemas com imagens que provocassem emoção nas outras pessoas.
João Cabral de Melo Neto morreu há exatos dez anos. E não surgiu no Brasil nenhum outro poeta ou intelectual importante que declarasse desinteresse por música.
Em 2005, foi instalado na internet o fórum “Procura-se quem não gosta de música”. Nenhum internauta afirmou que não gostava e poucos apontaram quem não gostasse.
Na verdade, nenhuma arte, entre as muitas concebidas e/ou desenvolvidas pelo cérebro humano, alcançou nível de popularidade superior ou equivalente ao atingido pela música. Nenhuma outra arte revelou-se tão propícia para a comunicação e foi tão largamente aproveitada pela publicidade e a propaganda, primeiro no rádio e depois na televisão.
O quadro é outro, já há alguns anos. Hoje a música continua alavancando a audiência do rádio, mas ocupa muito menos espaço do que já ocupou na programação de TV e praticamente desapareceu dos espaços reservados à publicidade e à propaganda naqueles veículos. Ou porque se tornou um recurso caro, ou porque foram encontrados e desenvolvidos recursos mais eficientes para a comunicação. Fora das campanhas eleitorais, ao que parece, jingles nunca mais.

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