A cobertura da Copa do Mundo no Jornal Nacional levou ao paroxismo um conceito de apresentação de notícias privilegiado pela Globo e copiado por muitos, segundo o qual quanto maior a suposta proximidade com o telespectador, maior o feedback. A troca de saudações entre William Bonner e Fátima Bernardes poderia ser definida apenas como meiga, excessiva ou tolinha, de acordo com o grau de sensibilidade ou cinismo de cada um, não fosse, antes de uma demonstração espontânea do afeto de um casal, uma cena destinada a enternecer o público. Não se trata do âncora e editor-chefe cumprimentando a assistente e funcionária, mas de marido e esposa expressando saudade em tela pública. Nada mais meigo. Nada mais adequado ao jornalismo intimista.
Cada fato relatado ao telespectador do JN é acompanhado da devida expressão facial dos apresentadores. Fátima comprime os lábios após cenas de violência, em especial contra crianças, certamente pela lembrança de seus trigêmeos, cujo nascimento mereceu destaque de furo internacional. Antes, espera a imagem se fixar nela para só então desviar o olhar do monitor colocado abaixo, à direita, e com isso eliminar qualquer dúvida de que via e se chocava, e não ajeitava a lapela ou fazia outro gesto banal, técnico, e, portanto, desprovido do sofrimento exigido pela notícia. William franze o cenho a evidenciar o inconformismo com certas coisas da vida. Se suceder matéria sobre os males do cigarro, aí vale semblante completo, com cenho franzido, lábios comprimidos e leve inclinação da cabeça para a direita.
Bóris Casoy é mais explícito, não simula objetividade e isenção. Ele está ali para dissecar as entrelinhas, traduzir o economês, revelar as intenções obscuras e, claro, especialmente está ali para se indignar. O bordão “isto é uma vergonha” deixou de ser um desabafo diante de situações de extrema injustiça e virou vinheta. Ao preparar o programa, é fundamental definir qual será o “isto é uma vergonha” do dia. A indignação se banaliza, tanto quanto a violência, a corrupção ou as injustiças sociais às quais deveria dirigir sua verve catártica.
O repórter de TV no Brasil sobrevive da capacidade de interpretação. De nada lhe valem boas fontes e competência na apuração se não souber conceder a cada frase a entonação ditada pelo figurino-padrão. A ênfase não é determinada pelo fato, mas pela forma de dizê-lo. Pouco importa se os acontecimentos dramáticos dispensam adjetivos ou se utilizá-los nos de menor importância é uma forma de distorção. Do novato ao veterano, mudam as gravatas, jamais o estilo. Imagina-se que os aspirantes a astro da mídia eletrônica recebam mais orientações de um especialista em preparação de atores do que de jornalistas tarimbados. Tudo em nome da proximidade com o público.
Televisão é forma, mas o problema de se privilegiá-la demais é se acabar esquecendo o conteúdo. Prefiro o âncora low profile, mesmo se ele tiver de desempenhar seu papel entre duas novelas, o que provavelmente reforça a exigência do sentimentalismo. Gosto do repórter menos enfático, que apenas conte o que apurou e deixe que eu escolha minhas próprias emoções. Temo ligar a TV pela manhã, um dia desses, e ver os apresentadores de pijama, dando as informações entre um gole de café e uma mordida nas torradas.
Dedicado a Íria Pedrazzi

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