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Joyce & Woolf

“Quando a pena se aproxima de uma página em branco sentimos que algo de belo pode acontecer, acompanhado de um sofrimento solitário”. Virginia Woolf.  …

Sem título“Quando a pena se aproxima de uma página em branco

sentimos que algo de belo pode acontecer,

acompanhado de um sofrimento solitário”.

Virginia Woolf. 

Por várias vezes, a livreira Sylvia Beach tentou reunir dois dos mais talentosos escritores de seu tempo, James Joyce e Virgina Woolf. No entanto, os dois nunca se encontraram, embora frequentassem o nº 12 da rue del’Odéon, em Paris, o endereço da mítica Shakespeare & Co. Por lá circulavam artistas, poetas e escritores do porte de T. S. Eliot, John dos Passos, Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Isadora Duncan, Pablo Picasso, Sergei Prokofiev e outras figuras da Lost Generation. Resignada por não conseguir presidir o encontro de Joyce e Wolf, Sylvia Beach colocou na vitrina de sua livraria um exemplar autografado de Orlando, ao lado da primeira edição de Ulysses.

Ao se defrontar com a literatura de James Joyce, Virginia Woolf disse ter ficado perturbada, mesmo antes de ler a primeira página de Ulysses. Em seu diário, ela anotaria que experimentara aquele medo primitivo, que apenas escritores sentem, quando se aproximam de uma obra poderosa. Ela também escreveu que o poeta T. S. Eliot, outro protagonista do modernismo, também se sentira sequestrado pela genialidade de Joyce e motivado a escrever algo melhor do que havia escrito até então. Mais tarde, Virginia Woolf descreveria, à maneira inglesa, seu encontro com Ulysses:

“Fui até a livraria da rue de l’Odéon e comprei um exemplar impresso em papel azulado. Eu o li durante todo o verão, com espasmos de admiração, de descoberta e, mais tarde, com longos lapsos de intenso tédio”.

***

Joyce e Woolf remodelaram a linguagem escrita ao expressar emoções e estados de espírito, como desesperança, alienação e a opressão do entre-guerras. Os personagens de Woolf vêm da classe alta e vivenciam guerras, neuroses, feminismo e ambiguidade. Já em Joyce, são pessoas da classe média ou baixa, intimamente ligados à Dublin, vítimas de si mesmos, apesar das conexões com o mundo exterior. Os dois escritores flexibilizam o tempo e, como fizera Marcel Proust, manejam recursos de flash-back. Em Mrs. Dalloway, Woolf usa uma centena de páginas para cobrir o espaço de um dia, enquanto em Orlando, as mesmas cem páginas cobrem 300 anos. Como em Joyce, existem monólogos paralelos, que cobrem a lacuna entre o tempo cronológico e o tempo interior dos personagens. Talvez por isto, Ulysses seja um dos livros mais discutidos e desafiados já escritos. Foi descrito por Jorge Luis Borges de forma quase definitiva:

“Mais que a obra de um único homem, Ulysses parece ser o trabalho de muitas gerações”.

Mais do que isto, é uma das poucas obras que conseguiu conciliar vanguardismo com popularidade, mesmo como ícone da erudição literária. O crítico Sérgio Rodrigues chama a atenção para a ironia irlandesa de Joyce, ao revelar à Sylvia Beach – sua primeira editora – ter embutido no livro enigmas e charadas para manter estudiosos ocupados por séculos – e assim, garantir sua imortalidade. É pouco dizer que a literatura de Woolf mudou após o impacto causado por Ulysses. O relato de um único dia na vida de dois personagens lhe abriu novos caminhos. Alguns de seus biógrafos confirmam traços de Joyce em suas novelas, ensaios, nas 4 mil cartas e até no copioso diário. Vitimada por depressão crônica, Virgina Woolf cometeu suicídio em 1941. Ela vestiu um casacão, encheu os bolsos com pedras e se jogou no Rio Ouse, em Essex, na Inglaterra.

Por coincidência, apenas dois meses após a morte de James Joyce, em um hospital de Zurich. Não se sabe se ela ficara abalada pela morte do escritor que tanto admirava ou repetiu o gesto de uma personagem de Mrs Dalloway. Na novela, Clarissa, ao saber da morte de Septimus, assume que vive de aparências e de falsos valores e se suicida. Entre as últimas anotações em seu diário, Virgina Woolf escreveria:

“Todos temos um passado escondido, como páginas de um livro, que decoramos e tentamos decifrar. Mas as pessoas só conseguem ler o título na capa”.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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