
“O passado é um pesadelo
do qual estou tentando acordar.”
James Joyce.
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Aquele meu amigo alegava saber as respostas, mas pensava por algum tempo antes de responder. Eu o invejava secretamente por seu saber sobre os escritores ingleses. Até escrevia artigos para os jornais sobre James Joyce e Ulysses. Quando repeti minha pergunta, ele me encara entre sério-e-divertido e dispara:
“- Para conhecer James Joyce não basta ler seus livros. É preciso ir a Dublin no dia 16 de junho e celebrar o Bloomsday, o dia dedicado a Leopold Bloom, o personagem maior de Ulysses. A festa começa no Davy Byrne’s, o mais joyceano de todos os pubs da Irlanda. Foi ali que Bloom almoçou um sanduiche de queijo gorgonzola e um copo de borgonha“.
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Aquele discurso ficou na minha cabeça por muito tempo. Não sei dizer quantos 16 de junho já se passaram, mas até hoje não consegui festejar o Bloomsday em Dublin, como devem fazer os verdadeiros joyceanos. Até que lembro das minhas adolescentes tentativas de completar a leitura de Ulysses. Como se dizia na época, o livro era “um osso duro de roer”.
Depois de algumas páginas, eu desanimava e abria o Retrato do Artista Quando Jovem, que foi o primeiro romance de James Joyce. Eu podia entender melhor Stephen Dedalus, do que Leopold Bloom. Mas minha frustração de não ir a Dublin nos 16 de junho não durou muito. Um dia, um colega de jornal me confidencia ser um dos joyceanos que celebram o dia de Bloom em qualquer ou bar que tenha Guinness ou um bom whisky irlandes. Diz que, na verdade, o primeiro Bloomsday só aconteceu 10 anos depois da morte do escritor. Foi quando alguns joyceanos entusiasmados se reuniram na Martello Tower, do primeiro capítulo de “Ulysses” e de lá partiram em romaria pela cidade, tomando toda a cerveja que encontravam nos pubs do caminho.
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As narrativas sobre Joyce e seus livros se tornaram lendárias, a exemplo de outros grandes da literatura e da poesia. Em 1929, a exuberante Sylvia Beach, dona da Shakespeare & Co de Paris, promoveu uma festa para lançar a edição francesa de Ulysses. Estavam todos lá – Gertrude Stein, Ernest Hemingway, Erza Pound, Zelda e F. Scott Fitzgerald, John Dos Passos, Man Ray, E.E. Cummings, Archibald MacLeish.
Depois do sucesso de Ulysses e dos dias de celebrações e festas, Joyce vive um tempo de tristezas. Está perdendo a visão, não mais consegue escrever ou corrigir seus manuscritos, o que sempre lhe dava muito prazer. Raramente sai de casa, levado por amigos para jantar. Bebe vinho branco e reflete sobre os personagens que criou, como Stephen Dedalus, que sempre tentava acordar de um pesadelo – seu passado.
Ele viaja para a Suíça, onde morre em 1941, com 55 anos mal completados. De acordo com seu pedido, é enterrado no velho cemitério de Fluntern, de Zurich. No funeral, Nora Barnacle, sua mulher e musa recita Ulysses:
“Caminhamos ao encontro de ladrões, fantasmas, gigantes, homens velhos, homens jovens, esposas, viúvas, irmãos, mas sempre ao encontro de nós mesmos.”
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