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Lá, as pessoas ou choram muito ou conversam demais. O choro nem sempre é sincero e as conversas quase sempre são indiferentes ao respeito …

Lá, as pessoas ou choram muito ou conversam demais. O choro nem sempre é sincero e as conversas quase sempre são indiferentes ao respeito inerente ao local. Discute-se política e novela, escândalos e futebol. Na melhor das hipóteses, um zunzunzum incessante.

Lá, verdade que um pouco mais afastadas, pequenas aglomerações  se formam, onde gargalhadas premiam piadas bem contadas. Já se ri muito à vontade por lá.

Lá tem gente de celular pelos corredores, falando alto e qualquer assunto, como se estivesse em casa ou no trabalho. E não é surpresa se algum estiver em viva-voz.

Lá, mais cedo ou mais tarde, sempre acontecem as ladainhas de padres, de pastores, de rabinos e outras autoridades religiosas. Às vezes cantam hinos ou até música popular.

Lá, tem lancheria e sempre se ouvem gritos de alguém perguntando se alguém quer algo de lá ou um outro alguém pedindo pra alguém trazer alguma outra coisa.

Lá, não falta um ou outro radinho, ou mesmo uma tevê, discretos ou indiscretos, mais perto ou mais longe, transmitindo ondas sonoras intrusas e deslocadas.

Lá, se ouvem os ruídos dos veículos lá fora, na faixa, com buzinas, sirenes, motores, freadas e escapamentos. E há um entra e sai de automóveis, nem sempre silenciosos.

Lá, nos preparativos finais, rangidos de madeira sendo aparafusada e de rodas sacolejando na trilha são amplificados nos mais sensíveis.

Lá, até os quero-queros soltam seus alarmes estridentes, enquanto acompanham a multidão que se move.

Lá, no último momento, os últimos sons que se deseja ouvir ganham ressonância além dos tímpanos, gravando o instante para sempre.

Lá, depois que tudo acaba, as pessoas se despedem audíveis à distância, com recados em voz alta, e combinações para que apareçam.

E ainda chamam, lá, de Jardim da Paz.

Sem preliminares, o gozo não goza, a inconseqüência é sem conseqüências, a existência inexiste. Com preliminares, o estéril fica fértil, a inércia vira carícia, o precipício precipita e o rol arrola. Sem preliminares, nada vai pelos ares, nem há esgares; com preliminares, se vai além dos arredores, se chega aos estertores. Relembre um fato, vislumbre um ato – e os links entre o agora e o outrora eliminam os hiatos. Por exemplo:

As preliminares da morte são a concepção,
a gestação e o nascimento.

As preliminares do humor escatológico
são as cócegas na infância.

As preliminares do 11 de Setembro
foram os vôos de Santos Dumont em Paris.

As preliminares do aquecimento global
foram o domínio do fogo e a invenção da roda.

As preliminares do neo-liberalismo
aparecem no colonialismo e na escravidão.

As preliminares do caso Isabella
estão lá no assassinato de Abel por Caim.

As preliminares da luta do MST aconteceram
nas capitanias hereditárias.

Etc.

A diferença entre as pessoas
às vezes é falta de poesia:
Com uma pedra no caminho
há os que fazem só geologia.

(Fraga, em Punidos Venceremos, 1980)

Um escultor extraordinário é aquele que faz nosso olhar passar por uma experiência tátil. Isso, cada uma das perturbadoras peças de Baz Batti (ainda em exposição no Margs) promove. Íntimo das entranhas do planeta, há 40 anos Bez Batti se excita com os regurgitamentos primevos das profundezas e nos seduz com sua volúpia pelo basalto. Além de fazer vibrar retinas, as esculturas endoidecem mãos, contraídas diante de tanta atração física, controladas pela compulsória civilidade – afinal, estamos num museu, não no receptivo atelier do artista. O acervo nos envolve pela hipótese atrevida: ao suavizar a rocha, Bez Batti consegue aperfeiçoar a própria natureza, ou nos induz a contemplar assim. Sua paixão é realçar sutilezas ou revelar contornos insinuados, delicada exaltação da matéria bruta. Esmerado, se tornou um exímio acariciador de asperezas, cativo da sensualidade do magma resfriado. E o ritmo da sua arte consiste – apenas! – em acelerar o que os rios Taquari e das Antas levaram séculos para sugerir. Do meio das obras de Bez Batti se sai com os bolsos cheios de infância, dedos a bolinar seixos invisíveis. O que mais se poderia esperar de um homem que ainda se deita com pedras? Deslumbrante.

Autor

Fraga

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