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“Le général Patton”

O L’Enfance de Lard é um daqueles típicos bistrôs parisienses que o viajante desprevenido não percebe e o turista acidental não sabe que existe. …

O L’Enfance de Lard é um daqueles típicos bistrôs parisienses que o viajante desprevenido não percebe e o turista acidental não sabe que existe. Quem entra, fica encantado com o teto de grossas vigas de carvalho e paredes de pedra de idade indefinida. Um salão ensombrado, de poucas luzes, mas carregado de personalidade e alma. Fica quase escondido em rua estreita,a rue Guisarde, entre Saint-Sulpice e o mercado de Saint-Germain, um refúgio de comida de pescadores.

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É um dos muitos restaurantes de comida regional que não figuram nos guias de gastronomia e que não foram feitos para viajantes como nós. Mas este pequeno bistrô de Saint Germain de Prés merece atenção por uma notável singularidade: trabalha apenas com frutos do mar. Exatamente aqueles peixes, moluscos e crustáceos que sabemos saborosos, mas que não são servidos nos restaurantes que frequentamos. O dono do L’Enfance de Lard é um normando com bigodes à Obelix, de nome Patrick. Ele garante servir os peixes mais frescos de Paris, que são entregues todos os dias em caixotes de gelo, enviados por uma colônia de pescadores de sua aldeia, na Normandia.

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A fachada do L’Enfance de Lard não se destaca entre os outros bistrôs da rua, alguns dos quais poderiam ser enquadrados no gênero tricher touristes, aquelas armadilhas para turistas, cada vez mais comuns em Paris. Funciona no mesmo endereço há poucos anos, um restaurante relativamente jovem, em uma cidade dotada de veneráveis estabelecimentos com datas centenárias em suas portadas ou em suas histórias – verdadeiras ou fictícias.

Examino com atenção o cardápio (que tem visíveis sinais de longo manuseio) e é apresentado apenas em francês, sem as duvidosas versões em inglês, redigidas para iludir incautos. O menu du jour desafia os não-iniciados e os desprovidos de conhecimentos sobre os habitantes dos mares da França. Ao faminto viajante resta apostar em um dos pratos da inescrutável lista de sugestões: 

“La Choucroute à Trois Poissons”,

“Soupe de Cabillaud”,

“Fritade Normande”,

“L’espadon cuit au four avec Asperges Blanches”, 

“Chien de Mer mariné aux Anchois”,                  

“Lingue Bleue aux Oignons Rouges”,                  

“Oursin grillé à la Sauce Tartare”.           

 

Ao lado da mesa, Obelix aguarda impaciente, de bloco e toco de lápis na mão. Fico indeciso entre a Sopa de Cabillaud e a Fritade Normande e ele resolve o impasse coçando o bigode – vou comer os dois – a sopa e a fritada. E, ainda, afirma que vou aprovar o vin de la maison – normando, naturalmente. Pacificada minha relação com as criaturas do mar, resolvo estudar os comensais no salão. Somos estranhos no ninho – não há turistas, todos parecem ser velhos conhecidos da casa. Noto que ninguém consulta o cardápio – olham a lousa na parede, fazem um gesto com a cabeça e logo um garção mergulha escada abaixo, em direção à cozinha no porão. Os clientes devem ser moradores do quartier, professores do vizinho Instituto de Belas Artes ou funcionários da Assembléia Nacional, poucos quarteirões adiante.                                                                   

Minha sopa chega rescendendo à maresia – um caldo espesso com grandes nacos de peixes que se desmancham na boca. Que é seguida de um festival de mexilhões, lagostins e gambas, fritos  em manteiga de alecrim, com pimentões, alho e cebola. Uma comida atemporal, feita para saciar pescadores famintos em noite de tempestade.

*** 

À saída, Patrick vai até a porta para saber se gostamos dos peixes de sua terra. Ouve os elogios, alisa o bigode e pergunta se quero conhecer o mascote da casa. Então, aponta para um grande gato negro, que me olha desconfiado de cima de um tonel de vinho. Diz que ele está na casa desde que seu pai abriu o L’Enfance de Lard.

“ – O nome dele é Le Général Patton”, anuncia.                      

Quero saber o porquê do nome. O homenzarão ri com malícia e promete que, na próxima vez, conta a estória do gato.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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