Sediados em São Vicente, primeira vila da colonização portuguesa no Brasil (1530), plantada no litoral paulista, no sopé da Serra do Mar, cuja economia eram o plantio da cana e a comercialização do açúcar, os jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta, em comitiva, sobem a Serra de Paranapiacaba (parte da Serra do Mar) e, depois de 18 dias de jornada, chegam a Santo André do Campo, consultam João Ramalho que lá vivia e, dia seguinte, dirigem-se para os campos de Piratininga, onde, numa colina sobre o Vale do Anhangabaú, constroem um barracão para ser sede de um colégio de catequese.
José de Anchieta, o primeiro poeta luso-brasileiro, em carta aos seus superiores da Companhia de Jesus, dá notícia das novidades: -“A 25 de Janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos, em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo e, por isso, a ele dedicamos nossa casa”.
Estava fundada a cidade de São Paulo, que comemorou seus primeiros quatrocentos anos de formas múltiplas e transformou seu IV Centenário em eventos inesquecíveis, como a construção do Parque do Ibirapuera, um marco na história urbana de São Paulo.
Não foram poucos os acontecimentos que marcaram o ano de 1954 na capital paulista. O dia 9 de julho, dia do meu nascimento e, no ano seguinte, data da revolução constitucionalista de 1932, em seu primeiro segundo do relógio, dava início a uma missa celebrada na catedral, enfim, concluída para a comemoração, depois de décadas do início de sua construção.
No crepúsculo do mesmo dia, a cidade foi cenário de uma “chuva de prata”, uma promoção das indústrias Pignatari em colaboração da FAB e que consistiu no lançamento, por aviões, de milhares e milhares de pequenas lâminas prateadas pelos céus dos antigos campos de Piratininga.
Em meio à realização de um festival internacional de cinema e de outros grandes eventos, como uma feira industrial nacional e internacional, em agosto de 1954 foi inaugurado o Parque do Ibirapuera, que se tornou o grande legado urbano de uma cidade que, conforme a própria marca do IV Centenário, era uma espiral ascendente que “aspirava ao infinito”.
Na década de 1920, José Pires do Rio, então prefeito, imaginou transformar aquela imensa área num espaço semelhante ao Hyde Park londrino ou ao Central Park de Nova Iorque.
O terreno alagadiço daquela área frustrou o projeto até que um simples funcionário municipal – Manuel Lopes de Oliveira, o Manequinho – um apaixonado pelo verde, iniciou em 1927 o plantio de centenas de eucaliptos para drenar o solo e eliminar a umidade do local.
Finalmente, em 1951, o governador do Estado, Lucas Nogueira Garcez, constituiu uma comissão mista – composta por representantes dos poderes públicos e da iniciativa privada – para que o Parque do Ibirapuera se tornasse o marco das comemorações do IV Centenário da cidade. Seu presidente foi Francisco Matarazzo Sobrinho, mais conhecido como Ciccillo Matarazzo e, anos depois, sucedido pelo poeta campineiro Guilherme de Almeida, um ex-combatente de 1932.
Seguinte, ou melhor, hoje não tem seguinte, mas não posso concluir um texto onde Ciccillo Matarazzo – um mecenas que punha a mão na massa – e Guilherme de Almeida, o IV Príncipe dos Poetas, proclamado pela Academia Brasileira de Letras, aparecem como coadjuvantes.
Peço desculpas ao leitorado: se você gosta do assunto, pretendo concluí-lo na próxima segunda-feira; caso contrário, prometo para o dia 21 uma coluna com começo, meio e fim.
Inté.
Vitrine (comentários sobre a coluna anterior)
Palmatória: semanas atrás comi mosca e não gostei. Deixei de colocar em Vitrine o comentário de um querido amigo, com quem dividi, por uma temporada, uma sala na antiga Standard Propaganda. Aí vai o extraviado:
Não se preocupe, velho Amigo, Amigo velho, mesmo fugindo ao seu padrão, vi que esta era exatamente a coluna para enviar minhas saudações por todas que chegaram, sem exceção, no nível Mario de Almeida, tanto dos bons tempos de Standard, bem como na descoberta do Mario de Almeida desde nosso último reencontro. Agradabilíssima surpresa, diga-se de passagem. Abraços. Gilson Loureiro, publicitário, Teresópolis/RJ.
De Brisbane, Austrália, onde visito minha filha Luciana com sua família, envio-lhe um forte abraço.
Carlos Alberto Silva, militar, Rio de Janeiro.
Jovem Mario! Não tinha dez anos, perguntei ao meu avô se era alegre ser velho! -… se você tiver boas lembranças… Moisés Andrade, arquiteto, Olinda/Recife.
Mario, tentei postar um comentário mas o site tá muito burocrático: rejeitou meu login 5 vezes seguidas. Desisti. Eu só queria lhe dizer que gostei muito do seu novo texto. Como você sabe, sou muito jovem – um garoto, mesmo – de maneira que leio esse seu depoimento com saudades de uma época que não vivi, mas curti… Rodrigo Meneses (septuagenário), publicitário, São Paulo.
O sanduíche de sorvete é fabricado pela Stela Alpina, que tem também o Beijo, a cassata… Alguns restaurantes em POA servem esses sorvetes. Adorei a historinha das pessoas que não se cumprimentavam… Beijos. Gladys Fichbein, jornalista, Porto Alegre.
Grato, Mario, pela lembrança de dias tão felizes. Convivemos juntos e só nos separamos quando parti para o Científico e você para o Clássico, eu para o esporte e a engenharia, você para o teatro e a vida. Saudades. Abraços. José Carlos Pellegrino, engenheiro, São Paulo.
Oi Mário querido, suas lembranças me trouxeram outras. Me lembrei do tempo em que todas as escolas celebravam nossa cultura. Faz muitos anos que não vejo crianças com chapéu e espada na mão pelas ruas saindo da escola para lembrar o 7 de setembro, cocares pintados em cartolina na cabeça para lembrar o Dia do Índio, eventos em agosto pelo nosso folclore.
Não tenho nada contra conhecermos outras culturas. Substituir a nossa por outra é tão desnecessário. Será que isso está acontecendo também nos outros estados? Beijos. Bom feriado. Circe Aguiar, professora, Rio.
Ô, guri, te comporta, ô. Não uses o meu nome em vão. Só porque me deleito com tuas crônicas, arriscas que pensem que tenho segunda intenção? Bem, tua nata de leitores sabe separar o joio do trigo. Ah, como sou da tribo tradutora de inglês, gosto da palavra remembranças. A Feira do Livro vai bem, obrigada. Só faltou tua visita. Beijos, Vera Verissimo, psicóloga, Porto Alegre.
Obrigado, Marião. Sua crônica é sempre um deleite. Também acompanhei muito a trajetória do teatro brasileiro. Lembro feliz da entrevista que fiz com o Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, para o Correio do Povo, quando o Teatro de Arena esteve em Porto Alegre e se apresentou no Theatro São Pedro, lá por 1960. Vianinha, no outro dia, veio me agradecer. Não lembro de alguém ter me agradecido por um entrevistado, nem antes, nem depois do Vianinha, que me pareceu uma pessoa muito calma, bem-humorada e segura de suas ideias. Era muito criativo e escrevia muito. Recordo que, já no início dos anos 70, doente desenganado, disse ao Chico e a outros amigos que o visitavam: “Não vou escrever nunca mais…” Mas tenho uma pergunta para você, Marião (que me foi apresentado pelo Volney de Assis, meu colega de colégio, a quem você deu uma surra de espada para adaptar o jovem ator ao papel de Romeu, correto?): Por que e como você foi parar em Porto Alegre? Conte essa história, que acabou dando origem a toda uma nova época na capital gaúcha.
Abração, José Monserrat Filho, jornalista, publicitário etc. Brasília/Rio de Janeiro.
Mon: Abujamra e eu nos conhecíamos de São Paulo, onde ele passava as férias. Nos encontramos num festival de teatro nacional de estudantes, no Rio. Eu dirigia o Teatro Rural do Estudante, no subúrbio carioca de Campo Grande, um dos premiados naquele festival, e o Abu me convidou para ir a Porto Alegre dirigir uma peça para o Teatro Universitário. Fui, dirigi duas peças para o TU e A Ilha das Cabras para outro grupo. Voltei para o Rio onde dividi as direções para a inauguração do Teatro de Arena em Campo Grande e, por carta, aceitei o convite do Glênio Peres para voltar a Porto Alegre. Voltei, inventei o espetáculo Poetas & Poemas e dirigi Romeu e Julieta para o grupo do Glênio. Fomos a Montevidéu apresentar Poetas & Poemas, a convite da embaixada brasileira. Eu pretendia voltar para o Rio, mas no trem de volta de Montevidéu para Porto Alegre, Milton Mattos, Paulo José, Peréio eu resolvemos fundar o Teatro de Equipe. O resto você sabe. Quanto ao Wolney, apenas provei a ele que era possível fingir um duelo de espadas sem ser esgrimista, mas com coragem. Provei e saí ileso. Quanto à “nova época” aconteceu que fui a Porto Alegre quando a cidade vivia um grande momento, verdadeira efervescência artística e cultural. Não nego que ajudei a fomentar aquela “nova época” do final dos anos 1950, ou melhor, agitei muito mesmo.
Muito gostosa esta crônica. Só me lembro desta nossa morada na Conselheiro, mas ouvi dizer que moramos antes na Alameda Barros. É verdade? Quando na Conselheiro, saí levado a passear pelo Moacir nosso tio, e na Barão de Itapetininga, ele entrou no chalé do bicho e, como eu não podia entrar, deixou-me esperando na porta. Bons tempos. E por sorte eu estava lá esperando. Quando ele chegou em casa perguntaram: Onde está o Eduardo? Quando às vezes somos distraídos, nos consolamos: Temos por quem puxar. Um abraço, Eduardo Coelho (irmão), empresário imobiliário, São Paulo.
Mano, moramos na Rua Conselheiro Crispiniano, depois Alameda Barros e voltamos à Conselheiro. Depois, Pinheiros, para sempre…


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