
Cornucópia na mitologia era um vaso em forma de chifre, com frutas e flores que dele saíam em abundância e expressa um antigo símbolo da fertilidade (Wikipédia).
O tenente-general do Reino Unido Robert Stephenson Smyth Baden-Powell criou, em 1907, o escotismo, que logo se propagou pelo Ocidente. Oficiais e subalternos da Marinha brasileira, em 1910, implantaram aqui a agora centenária instituição. Durante décadas, acampar foi atividade exclusiva de escoteiros e de sua versão feminina, as bandeirantes. Nossos primeiros campings datam dos anos 1960.
Na década de 1940, induzido por um colega ginasiano – antigo escoteiro –, um grupo de amigos da Caetano de Campos, São Paulo, resolveu experimentar, gostou e o porre de um deles batizou o nosso grupo de turismo de barracas: Shimox. Foram anos de excursões nos feriados emendados ou férias escolares e, como São Paulo não fica no Litoral, quase sempre nas praias. Em 1949, fiz parte do grupo de 19 jovens que veio de férias para o Rio e, acampado em Paquetá, completei 18 anos.
A Praia das Vacas, a uns 4 km da cidade de São Vicente, por oferecer vantagens ambientais e viagem rápida da Capital, foi o destino preferencial nos feriados emendados. Num pequeno morro, ao lado da praia, havia um bica de água natural, elemento fundamental para qualquer acampamento. Por comodidade – e para não atrair insetos –, ao término das refeições lavavam-se utensílios e pratos na água do mar e, antes da refeição seguinte, ia-se fazer a lavagem necessária e se colher a água na bica.
Numa dessas viagens, meu amigo Ricoy estava lavando o seu prato no mar e um caiçara (habitante do litoral), ao passar, advertiu:
– Ei moço, essa água é salgada!
– Eu sei, foi por causa da cornucópia.
Eu, próximo, ouvi a conversa e rolei na areia de tanto rir, pois assim como o Ricoy, eu também conhecia a lenda da cornucópia que salgou o mar.

Eu tinha uns nove anos e pedi um canivete ao meu pai. Ele perguntou se eu não queria um canivete suíço, aquele que antecedeu ao Bombril nas suas mil e uma utilidades.
– Não, pai, quero um canivete simples mesmo, de uma só lâmina.
Uns 10 anos depois, precisei comprar uma capa de chuva e entrei numa das lojas Ducal, na Rua Sete de Abril, em São Paulo, mais ou menos em frente do edifício dos Diários Associados. Estavam lançando a capa double face, e o vendedor, empolgado, queria me faturar a novidade. Eu já estava perdendo a paciência, pois, mesmo depois de explicar que não adiantava a capa ter duas faces se eu só tinha um corpo, ele insistia em sua ladainha. Tanto insistia que eu cortei:
– Escute, não gaste o seu latim, eu quero um canivete simples mesmo.

Domingo próximo
Em 9 de maio de 1906, um segundo domingo daquele mês, Anne M. Jarves, de Webster, Filadélfia, EUA, levou uma flor ao túmulo de sua mãe, falecida no ano anterior.
Decretado, primeiro como data municipal, depois estadual e depois nacional, o Dia das Mães atravessou fronteiras e foi se popularizando em outros países.
No Brasil, o escritor gaúcho Álvaro Moreyra, inda residente em Porto Alegre, através da Associação Cristã de Moços, promoveu a primeira comemoração da data que, em 1932, ganhou decreto de Getúlio Vargas. Ganhou decreto, mas não popularidade.
A Standard, agência de propaganda, com o apoio da Confederação Nacional do Comércio, promoveu, em 1948, uma campanha para a Exposição Modas, no Rio e em São Paulo, com excelentes resultados. Ano seguinte, o sucesso repetiu-se, a data ganhou tamanho de nação e atingiu o status de megapromoção.
Tive poucas possibilidades de homenagear minha mãe em sua data coletiva, pois em 1951, ainda moça, ela se foi.
Anos depois, num concurso de poesia alusiva à data, ela me propiciou um prêmio através de um único poema:
Retrato
Lembrando a Itabira de Drummond
Se viva fora,
oitenta,
Assim, pregada na parede,
idade vaga.
Trinta e cinco?
Quarenta?
Cinquenta, certamente não.
(Já fora convocada para a Chamada Geral).
Assim, pregada na parede,
cercada na moldura,
é quase nada.
Aqui – em mim – solta na memória,
presa no coração,
é muito.
E dói, mãe.
Inté.
Vitrine (comentários sobre coluna anterior)
Sempre Jovem Mário, bom dia. Obrigado por mais esta alegria. Moisés Andrade, arquiteto, Olinda/Recife.
Mario, lindo, leve e solto como sempre. Depois que te li e agora que a lua me pegou, fui lá fora e uivei: úúúúúú!!!!! Fiquei feliz. Sua fã. Wanda Almeida, jornalista, Cabo Frio, RJ.
Genial, Mário: inspiradora, lúdica, sábia. Abração! Prof. Dr. Carlos Cunha, Florianópolis.
O texto é perfeito, só discordo de vc incluir o Brito e Cafu como negros. Nosso Brasil anda, ainda bem, tão misturado, que todos somos um pouco mulatos. Abração. Guto Graça, publicitário, Rio.
Prezado Mário, acho que esta sabedoria de conquistar a alegria vem acompanhada de nossas lutas na vida… Tirei proveito desse seu estado de espírito. Abços. Aderbal Moura, corretor mobiliário. Rio.
Mario, parabéns por “Tire a sua dor do meu caminho que eu quero passar com o meu sorriso”! Abração. Gustavo Borja Lopes, profissional de TV, Rio.
Mario, os sábios escrevem; os afortunados sorvem suas alegrias e paixões. Estás cada vez melhor. Os apreciadores crescem e se empilham em admiração. Ótimo! Abraço. Eloí Flores. Diretor Campus Ulbra/Guaíba, Porto Alegre.
Grato, Mario.
Responda-me: por que as pessoas, quando muito alegres, parecem mais abstratas?
Abs. José Carlos Pellegrino, engenheiro, São Paulo.
Pellê:
Creio que você quis dizer abstraídas.
Como há – pelo menos – duas alegrias distintas, uma com motivo e outra sem, ambas podem levar à abstração.
No primeiro caso, o motivo faz com que se abstraia o que não se refere à curtição do mesmo; no segundo, a condição humana se abstrai de suas contingências para apenas festejar o ato de existir. É como um orgasmo abstrato.
Atenção: como estive no Oráculo de Delfos, na Grécia, apesar de não ser sacerdotisa, dou meus chutes. Aqui, chute é igual à corrupção de político, tem impunidade garantida.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial