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Lembranças que se embaralham

  Maluf informou à imprensa que ninguém tem uma ficha mais limpa que a dele, mas não informou o nome da papelaria onde a …

 

Ed. Matarazzo

Maluf informou à imprensa que ninguém tem uma ficha mais limpa que a dele, mas não informou o nome da papelaria onde a comprou. (M.A.)

Indo pelo Viaduto do Chá, em São Paulo, em direção ao Largo do Patriarca – homenagem a José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência – impossível não enxergar, à direita, o Edifício Matarazzo, antiga sede das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, inaugurado em 1939, dois anos após a morte do seu fundador, Francisco (Francesco) Matarazzo, italiano chegado ao Brasil ainda moço em 1881, que deu início a uma das maiores fortunas de italianos no mundo e construiu um império que, na década de 1950, era o maior grupo empresarial da América Latina, assim como São Paulo era o seu maior centro industrial.

Hoje, o edifício é sede da prefeitura paulistana, os Matarazzo não participam mais das listas de fortuna e o sobrenome deixou de ser usado como sinônimo de rico.

Outro italiano, que na mesma época tinha, em São Paulo, o nome usado como sinônimo, era Meneghetti (Gino Amleto), já conhecido em sua terra, na França e em Portugal, de onde foi exilado para a glória e reverenciado aqui como o maior ladrão da América Latina.

O finório meliante, anarquista por ideologia, antiviolência por temperamento e ladrão por profissão, especializou-se em entrar nas casas, objetos do trabalho, pelo telhado.

Meneghetti era bem tratado pela imprensa que, de certa forma, tornou-o um mito pitoresco. Era um ladrão “chic”, em francês, como se escrevia naquela época, antes do vocábulo ser incorporado como “chique”, tempo em que meliante e finório já começavam a ser arcaicos.

No mesmo ano da Semana de Arte Moderna – 1922 – no Largo Paissandu, a menos de um quilômetro do Teatro Municipal, sede do evento, surgia o Ponto Chic, onde Casimiro Pinto Neto, em 1934, criou um sanduíche batizado como Bauru, sua terra natal e assim tornada famosa, fama logo ampliada quando a prostituta Eny Cezarino chegou lá e, pouco depois, abria aquele que seria o top nacional do gênero: o bordel da Eny.

Tudo isso no tempo em que rapaz que “tirava um broto para dançar” e era recusado, “tomava tábua”, coisa que, mesmo estapafúrdia, acontecia nos tempos em que estapafúrdio era vocábulo inda não surrado.

Naquela época, mais que Saci, Negrinho do Pastoreio e Boto, a figura ilustre no imaginário brasileiro era Pedro Malasarte (Malazarte ou das Artes), simplório malandro importado da tradição medieval portuguesa, um pobretão usando a inteligência para ludibriar os mais favorecidos.

Câmara Cascudo, o potiguar respeitado como o maior folclorista do Brasil, foi um dos coletores das histórias e causos do Malasarte que, inclusive, ganhou as telas, personificado pelo Mazzaropi.

Exemplo: Pedro Malasarte cozinhava sua comida numa panela de ferro e, percebendo a aproximação de tropeiros, cobriu de terra o braseiro e, após uma demonstração de que a “panela mágica” cozinhava sem fogo, vendeu-a para o grupo dos boquiabertos incautos.

Hoje, o Ponto Chic tem duas filiais e daqui a 12 anos já será centenário. O Bauru original ganhou receitas diferentes, Eny morreu e os classificados dos jornais colocam prostitutas à disposição mediante convocação por celular, milionário é o Eike Batista, e os Meneghetti trocaram os telhados pelos cofres públicos, com o descarado “rouba mas faz” de Adhemar de Barros.

Maluf, que há anos era sinônimo de ladrão, vive o trajeto inverso de Meneghetti que veio para o Brasil exilado. Com pedido de prisão da Interpol em 180 países, se sair do país, vai preso, coisa que um juiz brasileiro achou injusto. Maluf, em relação ao botim geral, virou um mero pivete.

Ali Babá, o lenhador das  Mil e Uma Noites, que entrou no imaginário do mundo inteiro por haver roubado o tesouro de 40 ladrões, de acordo com o provérbio popular, deve haver recebido 100 anos de perdão, assim como a turma de subversivos que carregou US$ 2,6 milhões de um cofre do Adhemar de Barros, na casa da sua amante, em Santa Teresa.

Um dos participantes da curiosa expropriação, o ex ministro Carlos Minc, colega de Dilma Rousseff  (VAR-Palmares) na luta contra a ditadura, declarou que ela não participou dessa bem-sucedida ação.

Esse perdão não entra na folha corrida dela.

Inté.

Vitrine (sobre a crônica anterior)

Há meses, quando criei esta Vitrine, além de proporcionar uma interatividade entre leitores e autor, imaginei que ela também poderia ser, através de lembranças e outros comentários, uma extensão da própria  crônica.

A Vitrine de hoje vai ao encontro total do que imaginei, pois suscitou lembranças da gaúcha Vera quando menina e para quem “leviano” também era “leve”; o Wanderley lembrou de um outro perfeito trocadilho do Emílio de Menezes; o José Antonio mandou trecho de uma crônica do Armando Nogueira, e o Gustavo lembrou-me de quem eu esqueci, o grande jornalista Fernando Barbosa Lima e o Jornal de Vanguarda.

Sou só sorrisos, levianinhos, como eu dizia na infância gaúcha. A gente carregava a pasta do colégio, a de couro preto aquela, com uma alça pequena em cima, e achava leviana. Bons tempos. Muito corri com ela, em Lajeado, fazendo bolinhas de geada, correndo para o colégio, de manhãzinha, de saia azul-marinho pregueada, blusa listada e gravata. No verão, as meias grossas de lã eram um problema para as freiras, eu baixava, louca de calor, e elas diziam: levanta a meia, Verinha. Vera Verissimo, psicóloga, poeta e tradutora, Porto Alegre, RS.

Mário, ao ler sua crônica, lembrei-me, imediatamente, de um trocadilho, feito pelo boêmio e satírico Emílio, dirigindo-se ao queridinho da época, Eduardo Prado: “É do ar do prado meu primeiro respirar de todos os dias”.

Um grande abraço pós-Páscoa. Wanderley, Rio.

Grande Mário, … gosto de ler suas crônicas com calma, como se aprecia uma boa iguaria, e não na leitura”em diagonal”que adotamos para digerir o acúmulo de textos, muitos sem maior expressão, que a rotina diária dos  trabalhos nos impõe. A inesperada folga de hoje (06/04/10), forçada pela ação intempestiva da natureza que assola o nosso Rio e adjacências, me deu um fôlego para apreciar esta crônica leve e saborosa sobre o nosso querido e já saudoso cronista Armando Nogueira. Entre as tantas preciosidades do Armando guardo esta (Jornal do Brasil) sobre o meu time, o Cruzeiro de BH: “Há muito tempo que vejo o Cruzeiro, em campo, como o espelho azul do céu das Minas Gerais. É um espetáculo deslumbrante quando o Mineirão se veste todo de azul profundo pra exaltar o futebol. Azul, cor da nobreza. Não é por acaso que o Cruzeiro tem sangue azul”… Quer observação mais linda e poética para um time de futebol do que esta? Só vinda deste memorável e inesquecível cronista desportivo que o Brasil perdeu, mas que ficará sempre na nossa memória “for ever”. Grande abraço. José Antônio, Rio.

Faço aqui a mesma observação que fiz, via e-mail, à coluna do Xexéo sobre Armando Nogueira (O Globo, 31/03/2010): Não há dúvidas sobre a importância de Armando e Alice-Maria na história do telejornalismo brasileiro. Mas não podemos nos esquecer de quem primeiro superou a fase “rádio com locutor”: Fernando Barbosa Lima em seu Jornal de Vanguarda. Com os poucos recursos técnicos da época, Fernando abusou da criatividade, ao criar personagens como o “Sombra” e o “Mãozinha”, ao dar espaço ao humor gráfico (setor no qual Borjalo contribuiu, e muito, com os bonecos falantes), ao trazer para o vídeo cronistas como Otto Lara Resende e Sérgio Porto, e outras inovações. O Jornal de Vanguarda, sim, foi uma grande revolução, superada pelos avanços tecnológicos e pela adoção da forma do telejornal americano. Abração. Gustavo Borja Lopes, profissional de TV, Rio.

Autor

Mario de Almeida

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