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Livros e filmes. Filmes e livros. Qual seria o primeiro? O Leitor estava ao alcance nas duas formas. Fu Lana optou pelo livro. Ele …

Livros e filmes. Filmes e livros. Qual seria o primeiro? O Leitor estava ao alcance nas duas formas. Fu Lana optou pelo livro. Ele seria rapidamente lido, pois não se tratava de uma obra que exige maior fôlego. Letras grandes, poucas páginas. Assistiria depois ao filme, sobre o qual já ouvira alguns comentários.

Todos os filmes em que a sinopse publicada na imprensa dá poucas pistas são certamente filmes densos e de apelo subjetivo. Onde falta ação, fala mais alto a sensação. O Leitor é assim: menino se apaixona por mulher mais velha e lê para ela. Depois, a mulher é julgada por atos de violência durante governo nazista. Hum. Era preciso certamente saber mais. Sofrer no cinema, depois de uma certa idade, exige muita seleção. Seria preciso conhecer pensamentos não descritos, sondar o íntimo, antes de expor-se aos fatos, em uma espécie de senso de sobrevivência. Nada melhor do que a literatura para revelar o verdadeiro valor de uma história. 

Sendo assim, Fu Lana jamais descobrirá se a versão cinematográfica seria por si só suficiente, coesa e compreensível. As duas versões complementam-se tanto que seria preciso absorvê-las nessa ordem para entender onde nos leva a situação de Michael Berg e Hanna Schmitz em O Leitor: o menino e a mulher.

No livro, todas as pausas, olhares e significados são devidamente tratados em palavras. Na cena cinematográfica, as palavras desaparecem. Para isso, seria imprescindível contar com a atuação verdadeira e verídica de um elenco veterano, ainda que jovial.

O livro é um facilitador. A densidade psicológica é traduzida em legendas abstratas. Um olhar rígido, uma conquista, uma repulsa e uma traição: tudo é descrito. Depois, vamos ao cinema, usufruir do aprendizado. Rever os personagens que abstraímos ao ler. Conferir se o imaginário coletivo tem mesmo uma força universal.

Difícil, na verdade, é decifrar o enigma colocado pela história original: compreender ou julgar? Porque é impossível fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Se compreendermos, não podemos estar julgando, porque o veredito não é passível de compreensão.

O holocausto já foi de tantas maneiras tratado, em palavras ou em cenas mudas, que ao fim de tanto tempo corre o risco de virar uma caricatura. Deveríamos ser obrigados a visitar um campo de concentração, desta e de outras guerras, para aprendermos mais sobre o que se deve ou não aceitar.

Afinal, poderíamos amar um criminoso de guerra? Teríamos que punir uma geração inteira pois todos sabiam dos horrores cometidos. Seria possível perdoar? Ou deveríamos prender a todos? Fu Lana embatucou. No livro e no filme.

Se houvesse um julgamento dos torturadores e assassinos de outras guerras, suas amantes e esposas certamente iriam questionar se amavam homens ou ratos. E, tal como fizeram com os campos de concentração nazistas, poderiam ser preservadas outras áreas de “tratamento” a presos, abertas à visitação pública, para cravar, definitivamente na memória, a lição de como não devem ser tratados os seres humanos.

Viva o cinema e a literatura que nos ensinam a sentir e a pensar.

Autor

Clo Barcellos

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