A professora subia com dificuldade as escadas cinzentas que levavam ao apartamento. As geladas colunas de concreto lembravam um Mausoléo e um cheiro ácido empestava o ar. Ao entrar na cozinha de azulejos brancos, colocar as sacolas de plástico sobre a mesa de fórmica com pés de alumínio, tirar o lenço de bolinhas que segurava os cabelos, a professora parou uns instantes a olhar para a área de serviço com chão de lajes irregulares de cimento, o tanque sobre os tijolos e as bacias cheias de roupas, ao redor. O gato roubou alguns segundos de sua atenção. A filha que brincava na sala perguntou: mãe? Foi aí que ela chorou.
Começara com o lacrimejar de quem segura e depois amoleceu o corpo. Puxou uma cadeira de pés-palito, com almofada de plástico azul, sentou e escondeu a cabeça entre os braços, debruçada sobre a mesa. A filha parou na porta, espiando. “Nunca mais eu volto”, dizia a mãe, balançando a cabeça. Primeiro baixinho, depois andando pela cozinha, da pia que escondia o bujão de gás com uma cortininha de plástico, até porta da sala, onde havia um sofá de napa verde-militar, uma mesinha de centro dessas que levantam e viram uma mesa de jantar, um carrinho de bebidas com detalhes em dourado e um lustre de pingentes de vidro. “Não volto, mesmo!”, resmungava, soluçando.
Ela já havia reclamado de seus alunos adolescentes outro dia. Eles entravam e sentavam sobre as classes. Faziam troça dos menores e dela própria e, naquele dia, um deles colocou o dedo em riste ameaçando encostar no nariz daquela que lhe chamava atenção.
“Não volto”, dizia aos prantos.
A menina cresceu. Nunca quis ser professora, mas fez Licenciatura. Queria saber quais seriam as armas para se cativar alunos. O que afinal deveria ser ensinado nas escolas? Qual seria a melhor forma de ensinar com alegria e interesse na vida?
Assistiu a inúmeros filmes sobre feitos espantosos e conquistas humanas levadas a cabo por corajosos professores que cativavam os alunos através de aulas criativas. Outros dobravam os diretores reacionários que emperravam e denegriam a missão louvável de ensinar.
Mais de quarenta anos depois, a menina abandonou a pesquisa, tratou da vida de outra maneira e, uma noite daquelas, foi ao cinema. Assistir a Entre les murs. Saiu de lá emocionada, chocada, estarrecida. Sua mãe esteve naquela trincheira, porque há uma verdadeira guerra entre alunos e instituição. A menina-mulher continuava ouvindo aquele “não volto” dito aos berros.
A situação apresentada em Entre os muros da escola é universal. Com a diferença de que escola pública em Paris não se aproxima da deficiente e piorada situação que figura em outros mundos, mas aponta uma cena geral, onde os ideais estão sendo soterrados pela massa
Primeiro: o filme deveria ser obrigatório, nas escolas, nas direções das escolas, para os pais, para os alunos, para civis e militares, para a sociedade
A menina-mulher saiu do cinema com os olhos arregalados. Ela não seria a mesma. O mundo não poderá ser o mesmo depois de assistir Entre les murs. A França sempre foi vanguarda em comportamento e agora é vanguarda em mostrar a verdade. O caos domina e ainda não sabemos o que será necessário para sair dele e amenizar seus efeitos.
Aquela professora, naquele prédio úmido e escuro, levava sua vida como podia. E já via naquela época o que poderia estar acontecendo dali a 50 anos. Alguns professores murmuram desaforos sobre seus alunos; outros somatizam as tragédias do dia-a-dia e adoecem. Em tempo: os políticos também devem assistir ao filme. Ainda que no escuro não reluzam suas imponentes fisionomias.
A menina-mulher encontrou uma amiga na saída da sala. Perguntou-lhe o que achara e a resposta foi lacônica.
– Lá em casa, dei um livro infantil para minha filha de sete anos onde dizia: A paz é ter casa, a paz é ter trabalho, a paz é ter saúde. Sem qualquer uma dessas alternativas, teremos a guerra. Em qualquer lugar do planeta. Mesmo dentro da escola.

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