O célebre personagem Odorico Paraguaçu, imortalizado na TV por Paulo Gracindo, costumava espantar interlocutores ao informar que precisava ensaiar um improviso. O texto inteligente de Dias Gomes fez rir milhões de brasileiros. Apenas os mal dotados de neurônios não entenderam que, a despeito da boa piada, mesmo improvisos exigem um certo ensaio. Falar o que vem à cabeça pode converter o autor em ótimo repentista, ou figura de prestígio em sindicatos e confrarias. A autoridades convém lembrar que, embora a máxima de Odorico Paraguaçu funcionasse como anedota dita por um político que até poderia chegar a, digamos, presidir a Câmara, mas seguiria como integrante empedernido do baixo clero, ainda assim embutia preciosa lição.
Há algum tempo reivindiquei neste espaço um dublador para o presidente Lula, alguém capaz de transformar, como nos filmes, “shit” em “droga”, “son of bitch” em “calhorda” e “fuck you” em “dane-se”. Tal recurso neutralizaria a tendência verborrágica do presidente e nos pouparia de incontáveis asnices. Como sempre, a companheirada ficou amuada. Duvido que mesmo agora, depois da mais recente estultice presidencial, esteja disposta a examinar o tema.
Lula pode fazer um ótimo governo sem dominar o verbo (e o sujeito, o predicado…), mas alguém tem de convencê-lo, quem sabe o invulnerável Zé Dirceu, de que escasso domínio do idioma e descontrole da língua não combinam com excesso de discursos. Ricardo Noblat propôs certa vez a nomeação de um Ministro da Merda. Sua função seria bem simples. Teria apenas de, em determinadas ocasiões, alertar o chefe: “Isso vai dar merda”. Em relação ao episódio da hora, Augusto Nunes sugeriu o uso de uma mordaça, colocada por um diligente companheiro diante da iminência de um desastre verbal. Ainda acho a dublagem recurso menos dramático. Haveria apenas um certo desencontro entre som e movimento labial, mas poucos perceberiam, e ainda seria o menor dos desencontros.
A discussão palaciana sobre a possibilidade de Lula ter de se retratar, ou responder a processo por prevaricação, no qual a humilhação do réu começa pelo nome do delito, tem de incluir a necessidade de alguém correr o risco de desagradar o chefe e falar a verdade. O poder corrompe, entre outras razões, pelo fato de o ocupante do trono viver cercado de gente disposta a emitir elogios nos piores momentos para garantir o contracheque. E perceber sozinho, ele decididamente não parece capaz de fazê-lo.
Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha, Dona Deusa e seus Arredores Escandalosos e da ficção juvenil Eliakan e a Desordem dos Sete Mundos.

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