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Lisboa Revisitada

“Outra vez te revejo,Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui,Outra vez te revejo,Com o coração mais longinquo, a alma menos minha.Transeunte inútil de …

“Outra vez te revejo,

Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui,

Outra vez te revejo,

Com o coração mais longinquo, a alma menos minha.

Transeunte inútil de ti e de mim,

Estrangeiro aqui como em toda a parte.”

(Alvaro de Campos)

Com alguma facilidade, consigo lembrar quando e quantas vezes visitei New York, Londres e Roma. Mas não recordo quantas – das muitas vezes- que estive em Lisboa. Existem certas cidades que nos exigem vagarosas descobertas, paciente busca de segredos e que, mesmo assim, continuam distantes, desafiadoras.

Já Lisboa é território familiar, onde nos sentimos em casa, cidade que se entrega a cada visita. Lá ao alto, sobre uma das sete colinas, um velho castelo brilha à luz ambar dos holofotes. No passado, aquelas muralhas encenaram uma batalha que mudou a história de Portugal. Hoje, são o ponto cardeal para o visitante que palmilha ruas e ladeiras. E que acaba intuindo que, para poder desvendar as belezas desta dama de 5 mil anos, é preciso navegar sem mapas, seguindo somente os aromas e sabores da história e da cultura.

***

Os encantos surgem desde nossos passos iniciais. Há que se ter olhos curiosos para os mosaicos preto-e-branco das calçadas e para os azulejos verdes-e-brancos nas fachadas do casario. Mais cores no caminho: os vermelhos dos telhados, os amarelos dos prosaicos bondes e os azuis do rio que antecipa o vasto oceano. É o Tejo, sempre presente, íntimo e essencial, para saber de Lisboa e de Portugal. Subir sem pressa as ladeiras inclinadas nos conduz a insuspeitáveis tesouros, como a pequena Igreja de São Miguel. Sob o teto manuelino, recoberto de folhas do ouro das Minas Gerais, não existem turistas, apenas mulheres com véus negros sobre a cabeça, murmurando audíveis orações. Os ruidos da cidade não vencem as paredes de pedra e pode-se sentir o tempo se escoando tão vagarosamente como a misteriosa nuvem de incenso, que paira sobre o altar de muitos séculos.

Imagens atemporais nos acompanham pelas ladeiras e escadarias, que pouco mudaram desde o terremoto de 1755. Por detrás de caixilhos azuis e brancos pessoas espiam curiosas. Atrás das grossas portas de carvalho, descobrimos um café, uma padaria, uma loja de souvenirs. No bric-a-brac deserto, quinquilharias,  xales e chapéus de plumas com idades indefiníveis. No muro de pedra, o grifo e a cabeça de leão olham para as roupas coloridas que balançam ao vento.

***

Na hora do almoço, o homem na banca de jornais aponta para o botequim da esquina. A mulher de mantilha negra não concorda, discute, sacode a cabeça e indica outro caminho:

“- Ali não, acolá, ao Pinóquio, perto da estação de trens”.

A primeira impressão sugere uma armadilha para turistas, mas o restaurante de jeito kitsch e fora de moda tem as mesas cheias e  o cardápio escrito a giz na parede provocando velhos apetites:

”Ameijoas à Bulhões Pato” ;

“Lombo de Porco à Alentejana”;

“Calamares grelhados ao toucinho”;

“Massada de mariscos ao alho”.

Os mariscos estão em todas as mesas, mas o garção de bigodes à Eça de Queiroz recomenda o lombinho de porco. Que chega à mesa em caçarola de ferro, mergulhado em molho fervente de vinho e manteiga, coberto de batatas coradas e cebolas gratinadas.

Para completar, uma travessa com agriões temperados ao alho e uma cesta com grossas fatias de pão caseiro, perfumado de alecrim.

Diante de minha objeção à garrafa de vinho sem rótulo, o garção de bigodes à Eça argumenta, com forte sotaque da Galícia:

 ”- É o viño da casa, pode tomar sen medo, pois as barricas chegaron hai ben pouco, directo do Alentejo”.

E antes de voltar para a cozinha, promete trazer um naco de queijo da Serra da Estrela para a sobremesa.

E assim se revelam os encantos da velha dama. Estamos em casa.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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