“Outra vez te revejo,
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui,
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longinquo, a alma menos minha.
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte.”
(Alvaro de Campos)
Com alguma facilidade, consigo lembrar quando e quantas vezes visitei New York, Londres e Roma. Mas não recordo quantas – das muitas vezes- que estive em Lisboa. Existem certas cidades que nos exigem vagarosas descobertas, paciente busca de segredos e que, mesmo assim, continuam distantes, desafiadoras.
Já Lisboa é território familiar, onde nos sentimos em casa, cidade que se entrega a cada visita. Lá ao alto, sobre uma das sete colinas, um velho castelo brilha à luz ambar dos holofotes. No passado, aquelas muralhas encenaram uma batalha que mudou a história de Portugal. Hoje, são o ponto cardeal para o visitante que palmilha ruas e ladeiras. E que acaba intuindo que, para poder desvendar as belezas desta dama de 5 mil anos, é preciso navegar sem mapas, seguindo somente os aromas e sabores da história e da cultura.
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Os encantos surgem desde nossos passos iniciais. Há que se ter olhos curiosos para os mosaicos preto-e-branco das calçadas e para os azulejos verdes-e-brancos nas fachadas do casario. Mais cores no caminho: os vermelhos dos telhados, os amarelos dos prosaicos bondes e os azuis do rio que antecipa o vasto oceano. É o Tejo, sempre presente, íntimo e essencial, para saber de Lisboa e de Portugal. Subir sem pressa as ladeiras inclinadas nos conduz a insuspeitáveis tesouros, como a pequena Igreja de São Miguel. Sob o teto manuelino, recoberto de folhas do ouro das Minas Gerais, não existem turistas, apenas mulheres com véus negros sobre a cabeça, murmurando audíveis orações. Os ruidos da cidade não vencem as paredes de pedra e pode-se sentir o tempo se escoando tão vagarosamente como a misteriosa nuvem de incenso, que paira sobre o altar de muitos séculos.
Imagens atemporais nos acompanham pelas ladeiras e escadarias, que pouco mudaram desde o terremoto de 1755. Por detrás de caixilhos azuis e brancos pessoas espiam curiosas. Atrás das grossas portas de carvalho, descobrimos um café, uma padaria, uma loja de souvenirs. No bric-a-brac deserto, quinquilharias, xales e chapéus de plumas com idades indefiníveis. No muro de pedra, o grifo e a cabeça de leão olham para as roupas coloridas que balançam ao vento.
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Na hora do almoço, o homem na banca de jornais aponta para o botequim da esquina. A mulher de mantilha negra não concorda, discute, sacode a cabeça e indica outro caminho:
“- Ali não, acolá, ao Pinóquio, perto da estação de trens”.
A primeira impressão sugere uma armadilha para turistas, mas o restaurante de jeito kitsch e fora de moda tem as mesas cheias e o cardápio escrito a giz na parede provocando velhos apetites:
”Ameijoas à Bulhões Pato” ;
“Lombo de Porco à Alentejana”;
“Calamares grelhados ao toucinho”;
“Massada de mariscos ao alho”.
Os mariscos estão em todas as mesas, mas o garção de bigodes à Eça de Queiroz recomenda o lombinho de porco. Que chega à mesa em caçarola de ferro, mergulhado em molho fervente de vinho e manteiga, coberto de batatas coradas e cebolas gratinadas.
Para completar, uma travessa com agriões temperados ao alho e uma cesta com grossas fatias de pão caseiro, perfumado de alecrim.
Diante de minha objeção à garrafa de vinho sem rótulo, o garção de bigodes à Eça argumenta, com forte sotaque da Galícia:
”- É o viño da casa, pode tomar sen medo, pois as barricas chegaron hai ben pouco, directo do Alentejo”.
E antes de voltar para a cozinha, promete trazer um naco de queijo da Serra da Estrela para a sobremesa.
E assim se revelam os encantos da velha dama. Estamos em casa.


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