É provável que ninguém pergunte, cem anos depois, de que morreu Machado de Assis. A resposta é singela: de amor. Sobreviveu à mulher, Carolina Fulana de Tal, apenas quatro anos, durante os quais manteve a casa, tal como ela a deixara, seu lugar posto à mesa como se estivesse viva.
Cumpre-se neste ano (29 de setembro) o primeiro centenário da morte de Machado de Assis. Já começam a chuviscar na imprensa os primeiros perdigotos da mediocridade banal no título “Cem anos sem Machado”.
Esta expressão – “tantos anos sem fulano (ou beltrano)” nasceu, se mal me lembro, na década de 1960, quando se completou o primeiro aniversário da morte de alguém, cuja ausência deixava um claro em nossas vidas. Terá sido a de Leila Diniz, de quem não se ouviria mais as tiradas e as risadas que marcaram na mídia a emancipação feminina?
Alguém, de melhor memória, há de lembrar. Seja como for, o carrapato que incute em alguns jornalistas o espírito de rebanho começou a encompridar a ausência para “dez anos sem Vinicius”, “trinta anos sem Carlitos”, “cincoenta anos sem Humphrey Boggart”, e já houve alguém que escrevesse “duzentos e cincoenta anos sem Sepé Tiaraju”. Como saberíamos de Shakespeare se ele se tivesse mantido anônimo durante esses mais de 500 anos?
Acionemos um neurônio – não se precisa de mais – para se detectar a incongruência: se passarmos 100 anos sem alguém é porque esse alguém se evaporou sem deixar lembrança. Quantas pessoas, das que conheceram pessoalmente Machado de Assis e com ele conviveram, estão vivas?
Nenhuma. Da sua presença física, sobram fotos, como a de um entardecer do Rio de Janeiro, ele sentado com José Veríssimo e Euclides da Cunha na desaparecida Confeitaria Castellões. Pena que o único que pode ser identificado é o próprio Machado, por estar de frente. Os nomes dos demais participantes da “roda” foram anotados pelo fotógrafo e preservados por Plínio Doyle.
De que teriam eles falado, rido ou até mexericado? Das trivialidades compartilhadas com as pessoas amigas, não restou nada. Foram consumidas pelo tempo. Euclides, sim, poderia escrever da falta que lhe fazia o amigo e de fato o fez. Estava na casa de Laranjeiras e ali ficou até o fim, velando-lhe os últimos momentos, com o mesmo José Veríssimo, mais Coelho Netto, Graça Aranha, Raimundo Correia e Rodrigo Octavio e Mário de Alencar.
Um adolescente desconhecido bateu à porta porque desejava despedir-se de Machado. Conduzido ao quarto, tomou a mão de Machado e a aconchegou ao peito. Depois, foi embora, em silêncio.
Euclides da Cunha descreveu a cena em artigo para o Jornal do Commercio do Rio de Janeiro – “A última visita” – assim concluído: “Pelos nossos olhos passou a impressão visual da Posteridade”.
Não há como se dizer que a Posteridade está há cem anos sem Machado de Assis. Presente em uma multidão de admiradores da sua obra em muitos países, permanecerá pelo futuro afora, até a consumação dos tempos.
É a certeza dos cem anos após a sua morte.

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