Não existe momento de calmaria para as mães. Não existe sossego para as mães. Não existe tranquilidade para as mães. Não existem noites bem dormidas para as mães. Não existem finais de semana pacíficos para as mães. Todas estas situações saudáveis ao dia a dia de todo ser humano desaparecem da rotina de uma mulher no momento em que ela passa a ser mãe. Estes cenários de calmaria, sossego, tranquilidade, noites sem insônia, finais de descanso são, definitivamente, riscados da agenda das mães. E não existe nada de calamidade, de exagero ou desestímulo para as possíveis futuras mamães nestas afirmações acima. Jamais alguém deve desistir da maternidade em função do ônus. Os benefícios são bem maiores.
Ser mãe é viver eternamente à beira de um ataque de nervos. E o pior. Sem a direção do Pedro Almodóvar. Os filmes protagonizados pelas mães são dirigidos pelos filhos, produzidos pelos filhos e, por vezes, na maioria das sessões, as mães cedem seus papeis de protagonistas aos filhos, que deixem de ser coadjuvantes.
Quando o filho é pequeno, a mãe não descansa enquanto não nasce o primeiro dente, ou quando o rebento não dá o primeiro passo, ou não chega a estreia na creche e depois a entrada no colégio. Já, com o filho pré-adolescente, as preocupações variam. A mãe hesita em deixá-lo dormir na casa dos amiguinhos, teme ser chamada na escola pelo excesso de conversa e convive com a dúvida na hora do lanche da escola: ser mãe moderna e permitir o lanche das cantinas ou endurecer e só fornecer o lanche de casa, perfeitamente equilibrado e saudável. As dúvidas e inquietações das mães com os filhos e filhas somam-se e avolumam-se, em progressão geométrica, conforme o aumento da idade.
Depois, quando o filho situa-se na faixa tênue entre o fim da adolescência e o início da vida adulta, as mães percebem que jamais deixarão de se preocupar. É uma dor de cabeça quando os filhos brigam com seus companheiros. E uma pena, por incrível que pareça, do namorado (a) que é trocado pelo filho (a). É um estoque de calmantes na época do vestibular, sem que isto possa ser transmitido ao filho vestibulando. É o sono sempre defasado das mães a esperar noites e noites a fio que os filhos retornem inteiros e vivos das baladas. São rosários, terços, orações, mandingas, olhos gregos e tudo o mais que as mães usam para agradecer que o filho não é parceiro das bebidas e das drogas.
Independente da faixa etária dos filhos, em todas as horas da vida das mães, lenços e lenços de papel são gastos para secar as lágrimas caídas com propagandas melosas que mostram a conturbada relação maternal. E em todas as horas da vida das mães, uma profusão de conselhos passados de geração para geração: como levar um agasalho que pode esfriar mais tarde, levar guarda-chuva que o tempo mostra instabilidade, não aceitar bala de estranhos e tal e tal e tal… Como no filme “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, as mães têm medo que o gazpacho possa estar cheio de soníferos.
E assim, dizem, caminha a humanidade. E as mães seguem seu destino que é cuidar dos filhos por todos os seus dias e noites. E tudo parece encaminhado. Como manda o figurino. Até o dia em que os filhos comunicam às mães que vão exercer na prática lições maternais que aprenderam de cidadania e democracia. Da luta pelos seus direitos. Do cumprimento dos seus deveres. E as mães precisam, covardemente, sugerir que os filhos esqueçam tudo que lhes foi ensinado. E reforçando que a teoria, na prática é outra, rezam para que os filhos tenham alguma agenda muito importante na hora da manifestação.
Mas a minha filha Gabriela não tinha nada que lhe justificasse a ausência na segunda manifestação contra o aumento abusivo e inaceitável da passagem de ônibus do transporte coletivo de Porto Alegre. E lá se foi ela, fazendo da flor seu mais forte refrão, acreditando na flor vencendo o canhão.

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