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Mafalda & Cia.

“Afinal, gente vai tocando a vida

ou é a vida que vai tocando a gente?”.

Quino.

Qual é o segredo do sucesso dos personagens criados pelo norte-americano Charles Schulz e pelo argentino Joaquin Salvador Lavado, o Quino? Não há truque -ambos usaram uma obviedade que nos escapa – crianças podem parecer tolas e inocentes, mas são mais espertas do que os adultos. Tanto Charlie Brown como Mafalda e suas turmas discutem questões politicamente incorretas e fazem perguntas inconvenientes.

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Os dois cartonistas perceberam que as crianças podem ser perdoáveis mas, ao mesmo tempo, não perdoam nada nem ninguém. Elas nos obrigam a lembrar das inconveniências e pecados do mundo adulto: guerras, inflação, burocracia, corrupção, greves sem sentido, gente mal-humorada e tudo o mais.

Os meninos e meninas de Schultz e Quino não crescem fisicamente, mas discursam como adultos altamente politizados. Com certeza, uma projeção do alter-ego de seus tímidos e reclusos criadores.

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Quando Quino começou a desenhar Mafalda em 1964, ela tinha 6 anos e estava ingressando no jardim de infância. No início, contracenava apenas com seu “papá” e sua “mamá”. Amava os Beatles, tinha horror a sopas e sonhava em ser intérprete na ONU para contribuir com a paz mundial. Mais tarde, discute política social com a amiga Libertad, a menina mais liberal do grupo, mas as duas nunca estão de acordo. Libertad tem esperanças que o povo adquira consciência da situação política e promova uma revolução social para mudar as estruturas. Mafalda, embora rebelde, parece não apoiar a revolução de Libertad.

O sociólogo Umberto Eco, além de seus conhecidos talentos, era um interessado nas estórias em quadrinhos e frequentemente escrevia sobre elas. Para ele, as tiras de Charlie Brown representam uma pequena comédia humana que atrai o leitor infantil com a mesma intensidade que encanta adultos sofisticados. Consegue que seus leitores – crianças ou adultos – encontrem algo para se divertir – e refletir.  

“Schulz faz os personagens repetir

situações, mas as apresenta em

perspectivas diferentes”.

Em 1990, em entrevista à BBC, Charles Schulz declarou que nunca quis se aprofundar em temas políticos:

“Odeio dizer, mas eu desenhava crianças porque era o que mais vendia.

Quando eu juntava crianças e cães, os editores gostavam.”

Sobre a relação entre Snoopy e Charlie Brown:

” – Me intriga ver que os cães toleram travessuras

das crianças com quem brincam.

Talvez porque sejam mais humanos do que as nossas crianças…”

***

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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