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Maigret e seus olfatos

Era cedo da manhã, quando Jules Maigret atravessou a Place de la Bastille a caminho do Boulevard Henri IV. Ao passar diante da porta …

Era cedo da manhã, quando Jules Maigret atravessou a Place de la Bastille a caminho do Boulevard Henri IV. Ao passar diante da porta aberta do pequeno bistrot, sentiu aquela mistura de aromas que ele guardaria para sempre como a quintessência de Paris ao romper do dia – os perfumes de croissants quentes e do café fresco batizado com um gole de rum.

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Fragrâncias e aromas foram constantes nas novelas de Georges Simenon. Que costumava dizer:

“- Cada pequeno restaurante de Paris tem um cheiro particular, seja de Pernod ou dos vinhos regionais”.

E completava:

“- Pelo perfume do estragão e das cebolinhas que chega da cozinha, posso até dizer qual será o ‘plat du jour’ ”.

Em suas andanças, Jules Maigret encontra aromas que acordam nostalgias de outros tempos – peixes frescos lhe lembram a cidade e o porto de Fecamp; o bouquet dos vinhos do Loire, a sua Brasserie Dauphine, que ele frequenta com os inspetores do Quai D’Orsay.

Mestre em criar clima e ambientes, Simenon usa cheiros e perfumes para construir personagens e para evocar emoções de seu passado.

Em Maigret et la Grande Perche, o aroma de anis recorda um bistrot em Cannes e o caso da ladra que bebia Pernod. As lembranças de vilas e cidades emergem aqui e ali, durante as investigações. Quando um mestre-escola de Charentes vem pedir ajuda a Maigret, lhe vem à mente a praia de Fourras e as ostras frescas que comeu em um pequeno bistrot, regadas por um vinho branco da região – que tinha o sabor de maresia. E, logo que resolve o caso do mestre escola, ele liga para a esposa, avisando que vai a Charentes, passar uns dias à beira-mar, entre ostras, mexilhões e vinho branco.

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Em uma noite de inverno, Maigret e sua mulher vão a um bistrô no Quartier Latin, onde são envolvidos pelo cheiro acre do aquecedor a carvão. Eles comem uma tainha grelhada da Normandia e bebem uma garrafa de Pouilly-Fumé, cujos aromas os deixam “contentes como depois de um passeio no campo”. Quando a irmã de Mme. Maigret visita o apartamento do Boulevard Richard Lenoir, traz de presente uma garrafa do perfumado destilado de ameixas da Alsácia. Em uma cena de Cécile est morte, o comissário e seus inspetores saem do Palácio da Justiça e vão até a Brasserie Dauphine, “que estava quieta e aquecida, cheirando a chopp recém-tirado”. Ao fazer um telefonema, Maigret nota que o último cliente que usou a cabine abusou do Calvados, pois até o telefone rescendia a maçãs verdes.

Ao interrogar a porteira, cujo marido foi assassinado, em Maigret tend un piège, de 1955, ele sente o aroma de marc, o forte aguardente dos Pirineus. Mais tarde, ele lembraria daquela mulher triste, que bebia sozinha em seu cubículo mal iluminado.

Em Simenon, vinhos, cervejas e destilados ajudam a criar climas e marcar situações. Quando Maigret chega em casa, encharcado de chuva, a mulher lhe prepara uma caneca de grog com rum, açúcar e água quente. A bebida o leva instantaneamente ao caso de Pietr, o Letão, que ele capturou após cairem no mar gelado. O dono da barcaça os recebe com uma garrafa de rum, uma chaleira com água fervente e um pote de açúcar. Os três homens sentam-se ao redor do fogareiro a carvão e bebem o grog em pequenos goles, enquanto aguardam a chegada da policia local.

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Quando Simenon leva seu personagem a viajar pela França, ele o faz reviver ancestrais hábitos do interior. Os homens bebem rouge nos cafés, enquanto as mulheres rezam na igreja ou preparam o jantar. Mais tarde, eles jogam cartas e as mulheres lhes servem Calvados ou Armagnac, bebidas reservadas para os homens.

Quanto  a elas, se permite o vinho nas refeições e o licor de ameixa  ou anisette. Ao ouvir os homens falar de pescarias, Maigret suspira, lembrando de seu refúgio em Meung-sur-Loire, onde planeja viver quando se aposentar.

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O ar ainda estava frio e o dia, claro e luminoso. Maigret atravessa a praça e entra no bistrot defronte à estação de trens. Sente vontade de um pouco de vinho. Faz um sinal para o estalajadeiro, que lhe serve um copo de Macon Blanc. Ele aspira o aroma frutado e bebe lentamente, gastando o tempo antes de pegar o trem para Paris, que deve estar fria e molhada.

Sem que perceba, o estalajadeiro volta e serve mais um copo. Ele não protesta e volta a beber com calma, mesmo arriscando perder seu trem.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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