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Mais de 40 anos de sonho e de sangue

A música de Belchior, na voz do Los Hermanos, é um convite para remexer a memória, que nem sempre estamos aptos a vasculhar e …

A música de Belchior, na voz do Los Hermanos, é um convite para remexer a memória, que nem sempre estamos aptos a vasculhar e organizar uma coletiva seletiva, do que é passível de reciclagem ou não. Mas, às vésperas de comemorar mais um aniversário, aceitei o desafio e mergulhei na letra e melodia de “À Palo Seco”. Apropriando-me de trechos intercalados da canção, digo que tenho mais de 40 anos de sonho e de sangue e de Brasil. E, que por força deste destino, uma boa MPM me vai bem melhor que o tango. Gosto do meu país, do seu clima, das pessoas, dos sotaques, dos cheiros diversos e das comidas.

Se levar ao pé da música, tenho mesmo 25 anos de amor e desamor, trabalho e ócio, acertos e erros, feriados e plantões, confraternizações e brigas, vidas e mortes. É que nos últimos 25 anos, coincidentemente, brotaram os fatos mais importantes e marcantes de minha vida. Nem todos reversíveis. Antes, na adolescência e no início do que chamamos vida adulta, passei pelos ritos que doem, sangram e pisoteiam. Mas, a gente sobrevive. Porque, mais do que nunca é preciso viver. Ou porque ainda temos o fervor da pouca quilometragem ou até porque recém começamos a pagar pelos nossos atos. E a dívida é grande!

Depois, é que a responsabilidade começa a pesar. E aí, meu amigo, “se você vier me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava”, eu lhe direi que acreditei em utopias, alimentei sonhos, plantei sementinhas, escrevi as minhas dores e os prazeres, conheci pessoas que valeram à pena e outras que descartei. Percorri caminhos pavimentados e trechos em obras, perambulei por empresas que me valorizaram e patrões ingratos. Coleciono amigos e não mais inimigos. Mas, aviso, tem que ser de boa procedência, sem contrabando. E os classifico: bons amigos, amigos, colegas de trabalho, conhecidos…

E, mesmo descontente com alguns que tentam o rebaixamento, grito em português que ainda estou por aqui, que não desencarnei e, quem sabe, um dia, qualquer dia, a gente ainda se encontre. Sem cobranças para não perder o tempo precioso deles. Só para recordar daquela pauta que pifou, das festas que arrombamos, dos porres que tomamos, dos amores que nos invadiram, daquela noite de lua cheia e das confidências que trocamos. E antes que alguém com a consciência pesada se acuse, declaro que esse desespero é moda em 2009, e que eu quero que essa coluna, feito faca, corte a carne de vocês.

Sem a maestria do colega Mario de Almeida, cujas colunas são todas de arrepiar, relembrei, creio, de tudo um pouco. Não se trata de um testamento (fala sério!). Podemos chamar de desabafo de final de inferno astral, que nem chegou perto de mim nesta mudança zodiacal. No final de tudo, ou quem sabe no meio do meu caminho, tinham muitos amigos que prosseguem, um país, cravejado de pessoas dos mais variados quilates que ainda acreditam, palavras e saberes diferentes desenhados pela educação e injustiça social, e temperos e temperaturas antagônicas, cozidos pela geografia ou geologia.

Como ainda acredito que viverei longos anos, na hora de assoprar as velinhas (no meu blog que é marcinhaprodigio.blogspot.com, está o endereço da muvuca cultural, é claro), pedirei mais sonhos não só na América do Sul, mas no coração de todos os povos.  Menos sangue derramado em guerras inúteis. E toda a saúde que existir no planeta, mesmo que eu peça emprestada e pague depois com juros e correção, para continuar acompanhando, bem de perto, todos os passos da minha filha, Gabriela Martins Trezzi. Sem dúvida, o melhor presente que ganhei na minha vida.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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