Um velho amigo regressa de uma temporada em New York e me telefona. Percebo um tom de melancolia em sua voz. Ele diz que todos os restaurantes e bares que frequentávamos nos anos 70 estão fechados ou mudaram de dono. E conta como enfrentou uma nevasca no domingo de manhã para um ‘brunch’ no velho ‘Tavern on the Green’, do Central Park West. Mas não teve sorte – o mítico restaurante de telhados de vidro e candelabros de cristal trocou de dono, faliu e foi fechado para reformas.
Gastamos parte da manhã ao telefone, recordando a Manhattan de outros tempos. Demos risadas, quando lembrei das vezes em que passamos horas no balcão do “Michael’s Pub” à espera de Woody Allen e de sua clarineta. Ou das vezes em que caminhamos até Uptown para tentar uma mesa no “Elaine’s”, então o reduto de Jerry Della Femina e dos publicitários que admirávamos – eles simplesmente faziam os melhores anúncios do mundo.
Mas, no domingo, o ‘brunch’ com ‘french toasts’ tinha que ser no ‘Tavern’. E ao nosso lado, nunca faltava uma mesa com os chiques de Park Avenue. Era fácil de identificá-los – os homens vestindo blazers da Brooks Brothers, as mulheres, jóias da Tiffany’s. E todos felizes da vida, bebendo champagne Krug.
Quando saíamos, a tarde avançava pela noite, a neve cobria as árvores do parque, enquanto o quarteto de cordas tocava uma delicada sonata de Haydn.
Meu amigo se despede, ainda mais nostálgico do que antes:
– Precisamos voltar lá para rever os amigos da Madison Avenue.
Desligo o telefone e me dou conta de que aqueles tempos ficaram distantes demais. Não quis falar ao amigo, mas os antigos colegas de publicidade não moram mais em New York. Alguns já se foram, outros jogam golfe na Califórnia ou descansam ao sol da Flórida. E, pelo que sei, não sentem a mínima saudade da neve de New York e dos ‘brunches’ de domingo.
***
Quando chegava a Festa do Divino, nossa rua se agitava com a aparição daqueles homens sizudos, vestidos de togas vermelhas. Conduziam grandes bandeiras, encimadas com a pomba do Espírito Santo. Eles batiam palmas às portas das casas, fazendo reverências antes de entrar. Eu e minha irmã os seguíamos casa adentro, embriagados com o cheiro do incenso, olhando curiosos a mãe depositar moedas na caixa de madeira, apresentada no final da visita. Os homens de togas vermelhas conheciam o nome de todos os moradores católicos do bairro. Eles passavam em silêncio diante das casas dos judeus da Felipe Camarão e das casas dos luteranos da Ramiro Barcelos.
Aquilo me deixava intrigado e, um dia, na hora em que o cortejo passava pela casa amarela, na esquina da Felipe Camarão, fui perguntar a um dos homens se não iam entrar na casa do colega Moshe.
O homem sizudo me olhou por um minuto e sussurrou:
– Não podemos, eles não acreditam no Espírito Santo!
Teimoso, repeti naquela noite a mesma pergunta ao meu pai. Ele pigarreou antes de responder e disse que devia ser porque as pessoas do bairro não gostavam do pai do Moshe, que não cumprimentava ninguém e cobrava altos juros dos operários da fábrica de caramelos da João Telles.
No domingo, quando visitei meu padrinho Armando na Avenida José Bonifácio, ganhei uma mesada para me divertir na quermesse do Divino. Fui arriscar a sorte no jogo de argolas e, na primeira tentativa, ganhei uma lata de goiabada. Na volta, parei na casa amarela da esquina e chamei em voz alta. Quando Moshe apareceu, dei a ele a lata de goiabada.


*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial