Sair de uma zona confortável de conhecimento é o passatempo favorito de Fu Lana. Por isso, aconselha Sinédoque Nova York. Entretenimento é uma palavra fraca para o filme. Estaria mais para a Logosofia, que estuda o sentido da vida. Mais para o estremecimento de saber que nada, em sua própria vida, é como você imagina.
Estamos todos caminhando para o túmulo, fazendo de conta que não é conosco. A farsa do teatro nos distrai. Enquanto alguns autores trazem o questionamento para o palco, outros brincam de dar risadas. Em Sinédoque, o diretor e roteirista Charlie Kaufman quer que a gente observe o enlouquecer de um homem obcecado pela morte, que denuncia o simulacro da sua vida. Estamos vivendo um faz-de-conta. O diretor de teatro Caden Cotard, também roteirista de sua peça, exige de seus atores cada vez mais realidade. Se os atores não mentem, a peça funciona. E se a peça é sobre a própria vida do diretor-autor, só ele sabe a verdade. E ele é ouvido como um Deus, um Messias, um gênio.
No entanto, é a doença que lhe acompanha a vida, e a sua peça não tem plateia, nem estreia, nem bilheteria. Em um imenso galpão, em Nova York, durante anos, centenas de atores ensaiam exaustivamente suas cenas, que na verdade nada mais são do que o cotidiano do autor-diretor, Caden Cotard: suas lamentáveis investidas amorosas, seu despreparo para o casamento e/ou paternidade, seu desequilíbrio. E como todo o para-raios da miséria humana, ele reúne, ao redor de si, outros malucos que passam a questionar juntos o sentido de tudo e, a essas alturas, o espectador nada mais pode fazer a não ser tentar buscar alguma mensagem no que é apresentado.
Exemplo de uma cena non-sense com leitura psicanalítica: uma casa permanentemente em chamas, cuja proprietária tem medo de morrer em um incêndio. Nos faz refletir que estamos sempre em perigo, pois nossos medos estão materializados à nossa volta. A questão sexual do protagonista, o ator Phillip Seymor Hoffman, é também um grande medo, desde que ele é uma pessoa aparentemente frágil, com problemas de carência e auto-estima e que apenas consegue chorar nos momentos em que está nos braços de uma mulher nua.
Fu Lana dá atenção aos cabelos da mulheres. A jovem e perturbada esposa, escabelada em todas as cenas, em um relaxamento perturbador, e a superpsicóloga, escritora de best sellers de auto-ajuda com seus cabelos extremamente lisos bem acabados em cachos louros. As atrizes vão envelhecendo, assim como o próprio Caden, e as características de realidade vão se intensificando durante o filme. As roupas ficam enxovalhadas, a pele enruga e empapa, um expressionismo realista vem à tona, e a vida parece ser como é: suja, triste, enrugada e gasta.
Não há glamour, mas uma infinita desesperança. Sabemos ser essa a doença do século. Vírus estão até em desenhos animados, crianças de doze anos se tatuam, e morrem disso, corpos estão expostos a pústulas externas e internas. A hecatombe está próxima.
Desde quando você poderia sair ileso de um filme assim? A amiga de Fu Lana, que dá exatos 20 minutos para o filme conquistá-la, ficaria sem argumentos, pois Sinédoque, em 20 minutos é absolutamente linear. Conforme a doença do protagonista vai avançando, a fita descamba para o fantástico.
Perdemos o chão.
E Fu Lana sai do cinema cheia de pensamentos presentes no texto, prá lá de verborrágico: hoje, cada um é protagonista de um grande filme, o da sua própria vida. São milhões de roteiros e milhões de protagonistas.
Fica apenas a mensagem final de um bife (texto longo) dado por um padre em um enterro, que traz lágrimas aos olhos secos do ator-diretor-autor: danem-se todos.

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