Uma pessoa que eu respeito muito em matéria de literatura me falou muito bem da Inês Pedrosa. Mais: me emprestou o “Fazes-me falta”. Mas eu, chato como sempre, empaquei antes de trinta páginas. A Inês não me dizia nada, nada mesmo, e ainda me fazia cochilar. Aí deixei pra lá, me esqueci. Parece que com os portugueses nunca vou sair do Eça, do Pessoa e do Santos Fernando. Mas, quando penso em Portugal, a primeira coisa de que me lembro são das sardinhas. Gloriosas. Alguns vinhos também.
Esses dias, numa dessas revistas que mandam pra gente pra ver se assinamos, topei com uma entrevista da Inês Pedrosa. Era um chorrilho de banalidades, generalizações bobocas sobre homem e mulher que não suportam três homens e mulheres reais. Mesmo o que me pareceu correto me pareceu tão caindo de maduro que não fez diferença nenhuma. Mas dei boas gargalhadas foi na conversa sobre sexo oral. Vamos abrir aspas.
Inês Pedrosa: “Abro meu livro com uma cena de sexo oral. Minha mãe, que é uma mulher que se tem por moderna, disse-me: ‘Minha filha, que bom que seu pai já morreu, porque não conseguiria imaginar a reação dele ao ler isso’. Ela contou que não sabia que se fazia esse tipo de práticas sexuais, a não ser em relações com prostitutas. Veja só o que as mulheres viviam sexualmente até pouco tempo atrás”.
As mulheres, vírgula. A mãe da Inês.
Se a mãe da Inês é uma pateta sem a mínima curiosidade, se o pai da Inês era outro pateta, ninguém mais tem culpa disso. Quem pode acreditar que há alguma novidade em matéria de sexo desde a era das cavernas? O sexo oral é tão popular que tem até nome em latim. Além de a mamãe da Inês não ter experimentado a coisa na cama — ou no elevador, na mesa da cozinha, no banco de trás do Fusca ou em Trás-os-Montes —, não leu nada a respeito. Santa ignorância.
Mas as ilações feitas pela Inês me parecem mais assombrosas ainda. Fico matutando: como o cara pode ser um escritor razoável se em vez de encarar as pessoas, uma por uma, pra ver o que acontece, fica dando voltas numas duas ou três teses de buteco ou de sala de espera de cabeleireiro? A ingenuidade pode ser graciosa em crianças. Olha, um romancista não acha nada de nada. Ele é um espião de Deus.
Verdes anos
Aí pelos dezesseis, dezessete anos eu era muito compenetrado. Por exemplo, encarava sem bocejar coisas como o “Retrato do artista quando jovem”, do Joyce. Pelos dezenove, topei com Borges e Cortázar. Em poucos livros fiquei vacinado contra a chatice, a banalidade, a pompa, o pieguismo e demais mazelas que são o fermento de quase tudo o que passa por aí como literatura. É complicado. Meu caso é o mesmo do cara que se vicia em drogas pesadas: a próxima dose sempre tem de ser maior, senão não dá barato. Talvez seja por isso que muitas vezes eu deixe pra lá e peça uma cerveja.
Foguetes
A mania de soltar foguetes vem aumentando. Quando eu era menino, só se soltavam foguetes nas festas de São João e partidas mais importantes de futebol. Agora qualquer coisa é pretexto pra soltar foguetes, acho que até velório. Nossa alegria, ou simulação de alegria, tem de ser ruidosa, talvez pra gente mesmo acreditar.
Fogos para Freud
Freud dizia, ou pelo menos me disseram que dizia, que o homem tem um cerne irracional irredutível. Uma das inumeráveis provas disso é a sanha contra cavernas. Cavernas? Nem isso. Serve qualquer pedra que tenha uma concavidade de alguns palmos, ou pedras amontoadas que formem uma meia guarita. Neguinho viu uma concavidadezinha e pronto, vai lá acender uma vela. Acham que isso é fé. Sou mais os esquimós, que dizem: “Nós não cremos, nós tememos”. O resto é papo furado de tias de todos os sexos e idades.

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