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Mas bah, que frio de renguear cusco, tchê!

A cidade inteira de Porto Alegre está tremendo de frio, encasacada, encapuzada, enluvada, cheia de pulôveres de lã, enrolada em mantas e cachecóis, com …

A cidade inteira de Porto Alegre está tremendo de frio, encasacada, encapuzada, enluvada, cheia de pulôveres de lã, enrolada em mantas e cachecóis, com meias de flanela, sobretudos e casacões. A capital gaúcha está congelada até a raiz dos cabelos. E todo mundo caminha com passos apressados para chegar logo no seu local de origem e fugir da baixa temperatura. Tem gente batendo o queixo quando sai de casa de manhã bem cedinho. Tem gente que não consegue sair debaixo do cobertor nas tardes geladas de sábado e domingo. E tem muita gente (ah, se tem) que fica despistando e despistando para entrar no chuveiro só depois de muita enrolação.

Mas bah! Que frio de renguear custo, tchê! Literalmente. A expressão remete ao tempo dos tropeiros que levavam o gado para a invernada em épocas frias do inverno gaúcho. Neste cenário de campos cobertos de gelo e enfeitados de geada, os tropeiros perceberam que os cuscos – companheiros na lida do gado – sempre caminhavam com três patas apenas. Uma das patinhas ficava erguida e os cães trocavam seguidamente de pata para nenhuma delas congelar. Um pouco de sabedoria, nem que seja popular, cai bem. Pois, Márcia e Wikipédia também são sinônimos de cultura.

O meu neto shih tzu canino Dalai é o mais típico caso de sofredor contumaz com o frio. Nem o excesso de pelos brancos, com mechas naturais de fios pretos e cinzas (um charme), serve para amenizar o frio visível do meu cachorro. Meu cusco não fica rengueado. Mas ele reclama muito, através de gemidos num ritmo constante e triste. Quando as temperaturas descem dos 10 graus nos termômetros. Na sua rotina noturna de localizar-se atrás da minha cabeça no sofá da sala (para servir de almofadinha pessoal enquanto eu vejo novelas, séries e os meus DVDs), o Dalai não só resmunga e emite sons estranhos de inconformidade, como também tem tremeliques de frio.

E, pensando, cá com os todos os meus botões das minhas roupas de inverno. Se as pessoas sofrem muito com o frio, mesmo aquelas já acostumadas com o inverno e seu clima arrasador. Se as pessoas andam nas ruas, só mesmo porque é extremamente necessário este movimento, todas agasalhadas e mal tiram as faces de dentro das toucas e capuzes para conceder um olá. Se as pessoas, dentro do conforto de suas casas, puxam cobertas, engolem xícaras e xícaras de chá e outras especiarias quentes. O que dizer daqueles que não têm teto, casa, alimento, cobertor, roupas quentes?  O que dizer destas criaturas que convivem sempre com o frio em suas vidas?

O inverno é uma estação que expõe demais as diferenças de classe e, por isso mesmo, as injustiças sociais. Continuo pensando que o inverno é muito excludente. Um período de reclusão. Quem sabe cada um aproveita estes momentos de reclusão e pensa em como pode ajudar a tornar menos injusto o inverno daqueles que vivem sempre nas ruas, que convivem com as gélidas temperaturas e que mesmo assim jamais congelam os seus sentimentos.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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