Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
(Vinicius de Moraes)
Se você está com pressa, inté.
Hoje, adeus cânones, escreverei uma crônica desconectada, igual à vida. Ao menos para uma parte dos viventes.
A minha foi desconectada, de forma abrupta, no golpe de 1964. Tiraram de cena um homem de teatro e um jornalista. Estreei como aprendiz de publicitário. De repente, não mais que de repente.
Nos comentários da crônica sobre panetones da confeitaria do Arruda em Brasília, li: “Mario, conheço o amigo citado em seu depoimento, Mauro Rubens de Barros… uma pessoa extremamente inteligente.” Assinado, Ruth Paccini Pagan, SP.
A única não novidade naquele comentário foi sobre a inteligência do meu amigo Mauro Rubens de Barros. Sempre foi “extremamente inteligente”.
Perguntas: quem é Ruth? Quando citei o Mauro Rubens? O antigo repórter foi à luta. Respostas: pedi ao Vieira aqui da Coletiva o e-mail da Ruth, lembrei-me que um desastre cibernético levara-me o e-mail do amigo citado, pedi-o ao Cyro del Nero e recebi ambos. Grato.
A pergunta para Ruth foi respondida:
“Olá… sou amiga do Rubens… Tenho certeza que vcs terão muito que conversar… creio que será uma pessoa importante para dar informações para seu novo livro… entre em contato com ele… eu o chamo de ‘arquivo vivo de SP’… É muito bom passear com ele no centro da cidade… Estou te enviando em anexo a entrevista dada por ele e Cyro del Nero para a biblioteca Mário de Andrade…. excelente…. embora eu seja suspeita! Sou professora e gosto muito de ler todas as suas crônicas…parabéns… Um abraço carinhoso.”
Mandei a coluna onde estava o comentário da Ruth e escrevi: Mauro Rubens, ao pé da coluna, referência a você. Abração. Mario
Resposta: “Mario velho de guerra! Há quanto tempo! Vc pode me enviar esse seu depoimento? A propósito vc tem acompanhado os depoimentos na memória oral da Biblioteca Mário de Andrade? O meu está com o do Cyro del Nero . Gostaria de saber sua opinião. Abraço saudoso MR. Se vc tiver o e-mail da Ruth poderia me enviar?”.
A Internet me ajudou a achar fácil a crônica onde citei o Mauro Rubens (30.03.2009) e enviei-a. Li os depoimentos do Cyro e do MR sobre a nossa biblioteca posteriormente batizada como Mário de Andrade. O MR pediu a minha opinião, mandei, com cópia para a Ruth:
Nova amiga Ruth e velho companheiro e amigo Mauro Rubens: grato, Ruth, pelo caminho das pedras para ler os depoimentos do MR e do Cyro del Nero sobre a Biblioteca que frequentamos. Antes, uma confissão arqueológica: eu morava na Rua Conselheiro Crispiniano, quase 7 de Abril, a rua da antiga Biblioteca Municipal, e meu caminho diário para a Caetano de Campos, onde cursava o 4º primário e era bibliotecário (biblioteca infantil). Esgotei rápido a leitura do acervo para crianças e um dia – 1941 – entrei naquela Biblioteca Municipal e perguntei se podia frequentá-la. A surpresa – pela minha idade – provocou consultas internas e veio a resposta positiva: poderia, desde que levasse uma autorização paterna, o que foi feito e me proporcionou algumas idas: Júlio Verne é o único autor que me lembro daquelas investidas.
Li os depoimentos do Cyro e MR, tanto a síntese como a transcrição da gravação. Admiráveis!
Uma preciosa radiografia da Biblioteca e uma ótima iluminação de quem foi em importância do diretor Sérgio Milliet para tantas gerações de frequentadores que não teriam outras formas de acesso à abrangência e importância daquele acervo diariamente atualizado. Assim como Mário de Andrade, Paulo Duarte, Antônio Cândido, Paulo Emílio de Salles Gomes, Décio de Almeida Prado, Alfredo Mesquita, Lourival Gomes Machado, Ciccillo Matarazzo, Franco Zampari e tantos outros, Milliet foi um dos fundadores da metrópole cultural São Paulo.
Quanto ao depoimento do Cyro, dois toques na memória: o bar e restaurante defronte à antiga Light cujo nome ele esqueceu, era a alemã Harmonia, entrada escondida por trás dos elevadores de um edifício comercial lá na Xavier de Toledo. Uma dupla idosa de pianista e violinista também tocava Lili Marlene quando a nossa turma de amigos da Caetano lá chegava (a gente cantava baixinho a letra na versão em português). Muitas vezes Jânio Quadros, inda vereador, levava suas caspas a passear e, quando inverno, num sobretudo preto.
Quanto ao violinista, anos depois, Harmonia já fechado numa bela despedida a portas fechadas para os habituais eu, já morando em Porto Alegre, numa ida a São Paulo, encontrando o amigo Ricos, resolvemos fazer uma noitada de boemia e, na madrugada, encontramos num Inferninho, o velho do Harmonia e seu violino. Esperamos fechar e o levamos de táxi para o Jabaquara, onde morava.
O teatro cujo nome deu branco no Cyro, na Vila Mariana, é o João Caetano.
Agora uma correção: não foi no Maria Della Costa que aconteceu o alumbramento pelo teatro no Flávio Rangel, foi antes, no mesmo ano, 1954, no Santana, o teatro que já não existe na 24 de Maio.
Antes, um detalhe importante: em 1953, a Companhia Dramática Nacional, do Serviço Nacional de Teatro, Rio, levou espetáculos para São Paulo, entre os quais A Falecida, do Nelson Rodrigues, com Sérgio Cardoso no papel principal. Dez horas da manhã de um domingo, Teatro Leopoldo Fróes, Vila Buarque, levei Flávio para assistir, pela primeira vez em sua vida, a um espetáculo teatral. Foi algo meio mágico, ver e ouvir o Flávio, naquela sua voz esganiçada, à saída da sessão, imitando o Sérgio no final da peça: Casaca, casaca, casaca! Vasco, Vasco, Vasco!
A segunda vez do Flávio foi a definitiva. Temporada em São Paulo da Companhia Madeleine Renaud-Jean Louis Barrault e numa vesperal de quinta-feira de Le livre de Christophe Colombe, de Claudel, Flávio e eu fomos ao Santana onde eu já possuía um esquema funcionando: mediante uma propina ao responsável pela claque, eu recebia uma senha com direito a sentar em qualquer lugar desocupado do teatro, exceto frisas e camarotes. Naquela tarde o teatro estava totalmente lotado e Flávio e eu acabamos assistindo às quase três horas de espetáculo ajoelhados na amurada lateral do balcão nobre. A partir daí Flávio e eu fomos a alguns outros espetáculos, até O Canto da Cotovia, quando Sandro e Maria Della Costa trouxeram o Gianni Ratto para dirigir, que veio com a mulher, a figurinista Luciana Petrucelli. Nesse espetáculo os Fernando(s) Torres e Montenegro foram do Rio para a montagem. Manoel Carlos fazia o pai da Joana D’Arc e, nervoso para a estréia, ficou completamente afônico até quase a hora do espetáculo. Estive com ele nessa tarde dramática, mas a noite a voz destravou e foi tudo bem.
Acidente proverbial: Maria Della Costa, como Joana, não parava de falar em cena e o sucesso prolongou a peça em cartaz. Consequência: calo nas cordas vocais e cirurgia. Outra consequência: teatro parado e avião no hangar são prejuízos certos e a solução foi a belíssima montagem de A Moratória, do Jorge Andrade, com Elísio de Albuquerque, Fernanda Montenegro, Sérgio Brito, Milton Moraes, Monah Delacy e Wanda Kosmos. Show de bola e, a partir daí, Fernanda deslancha até hoje como gênio do teatro, cinema e TV e, por luxo, grande pessoa.
Cyro não é o único a atribuir à Cotovia o engajamento do Flávio, pois a partir daí levei-o à Biblioteca e ele ficou mais um “adorador” onde fez grandes amigos até a morte. Ganhei do Maneco a foto dos 4 mosqueteiros na Praça da República (eu morava em Porto Alegre) e no Sheraton Rio também fotografei com eles a quem o Cyro se refere (ele, Maneco, Bento Prado Jr. e Flávio). Essas fotos do Rio ninguém tem, como contou o Cyro no seu depoimento.
Se você, leitora (or), ficou até aqui, agradeço.
Inté.
Leitor na Vitrine
Como já avisei, hoje estou informal. Informal e interativo.
Vou responder aos comentários das (os) leitoras (es) aqui mesmo.
Joia. Coluna joia. Vera Veríssimo, Porto Alegre.
R. Sei que sou ourives de bijuterias, mas o ego faz de conta que nem sabe. Beijos.
Em Copacabana, pra que GPS, se temos Mário de Almeida? Roberto Castro, Rio.
R. Esse tal de GPS é pra localizar carros e um mundo móvel, né? Detetives estão usando para investigar prováveis adultérios através de roteiros… Se for o caso, vá a pé…
Adorei… parabéns sempre…vc é uma pessoa muito especial, abraços, Ruth, São Paulo.
R. Ruth, vc é de uma generosidade muito especial. Grato. Bjs.
Sempre muito lembrado Mário, bom dia.
Obrigado por recuperar nomes e lembranças.
Não frequentei o Rio amiúde, exceto dois anos passados nos anos 70. Mas lembro do Hotel Toledo. Nessa época gostava de jantar no Lucas, sozinho e no meio da semana. Uma noite segui um movimento incomum. Pessoas em direção ao Alcazar. Silenciosa roda de gente. Na calçada morria Almir, o Pernambuquinho. Cursamos o ginasial do Colégio Americano Batista, no Recife. Na mesma sala. Sempre foi tinhoso. Moisés (Andrade), Olinda/Recife.
R. Caríssimo: lembrei-me que você me contou que na sua bienal carioca, projetou o Morada do Sol, conjunto de edifícios residenciais em Botafogo, no cocuruto do Morro do Pasmado, defronte a um posto de gasolina que não existe mais e do Shopping Rio Sul, que nem existia. Projeto aprovado pela Prefeitura, o incorporador, Lynaldo Uchoa de Medeiros, deu ordens para modificar o projeto, baixando custos. Você não topou a safadeza, se mandou, e o safado, pouco depois, protagonizou a maior falência daqueles tempos com o seu grupo LUME. O edifício que deveria ser construído entre ruas São José e Nilo Peçanha parou nas fundações e foi batizado como o “Buraco do Lume”. Desde o ano passado ganhou placa e lembra meu querido amigo Mario Lago, o felizardo da Amélia, a mulher de verdade. É triste passar num lugar onde há placa de um nome querido. Moro na Barra e aqui, como no Recreio, o que tem de placas é um cemitério de saudades.
Quanto ao Almir, assassinado em fevereiro de 1973, no Rio Jerez, um dos dois restaurantes espanhóis na entrada da Galeria Alaska, na Avenida Atlântica, em Copacabana, no Google há um depoimento do escritor Mario Prata, testemunha ocular do crime.
Quanto ao Lucas, algumas vezes comi lá o goulash, sempre acompanhado por um chope bem tirado. Dê-me mais memórias, pois sei que são muitas. Abração.
Mario, beleza de coluna!!! Quando vou assistir a algum espetáculo no SESC da Domingos Ferreira, passo em frente ao tal Hotel Toledo. Não sabia que as acomodações eram tão pequenas assim! Aliás, por falar em SESC, assisti lá, ontem, à versão de Antígona por Guilherme Leme, batizada “RockAntygona”. Gostei muito. Abração, Gustavo, Rio.
R. Gustavo amigo: o espetáculo a que você assistiu no mezanino do SESC é no mesmo espaço do Teatro de Arena – acho que você sabe –, um projeto do Niemeyer. Quanto à Antígona, na versão do francês Jean Anouilh, no prólogo, há um conceito inesquecível – “a tragédia é repousante porque não há o mínimo de esperança” – como também inesquecíveis são dois pontos gastronômicos naquela rua, além de pizzaria, galeto e restaurantes/botequins.
Robert (Bob) Falkenburg, nascido em Nova York (1926), passou parte da infância no Brasil, foi campeão de tênis, Wimbledon, 1948, casou-se, inda que contra a vontade da família dela, com a milionária carioca Lourdes Mayrink Veiga Machado. Esnobado pelos Mayrink e pela sociedade, em 1951, abriu uma sorveteria com sabor único de baunilha e feito com máquinas importadas. Ano seguinte, no mesmo endereço, abriu a primeira lanchonete brasileira dentro de todos os conceitos de fast food. Casou depois com Sílvia que adotou o sobrenome dele e, depois da separação, passou a ser a atriz Sílvia Bandeira. Gustavo, como você sabe, fui durante anos ghost writer do Walter Clark, até sua saída da Globo. Você também sabe que Walter estava em Nova York, com a Sílvia, quando recebeu a notícia que acabara de ser demitido da Rede Globo. Quanto ao Bob, que inclusive foi da equipe brasileira de tênis na Taça Davis, vendeu o Bob’s, ainda no início da grande rede de lanchonetes e mora em Los Angeles. Lembro-me bem de filas nos fins de tarde dominicais nesse primeiro Bob’s, nos anos 1950. Curiosidade: os balconistas eram treinados para memorizar os pedidos. Naquela época, nenhum deles usava papel e caneta. Levei muitos paulistas lá só para o show de memória.
O Nino não existe mais! Em seu lugar, na Domingos esquina com Bolívar, é o Belmonte. O Nino, durante décadas, foi referência de boa comida num local de classe. Como você me abastece de “causos”, vou diminuir a dívida com três.
1. Quando em 1969, criei e comandei uma campanha da Shell vendendo nos postos adesivos, pró-fundos para a seleção brasileira com vistas à Copa 70, o presidente da Comissão era o banqueiro Walter Moreira Salles, então casado com Elisinha. Lá no Nino encontro o casal e Elisinha me provoca:
– Veja lá, Mario, a gente só entra em qualquer coisa para ganhar.
– Esse foi o grande motivo para eu convencer a Shell para que assumisse a campanha que bolei.
2. Numa manhã de sábado, quando eu estava na praia defronte à Rua Bolívar, fui cumprimentado e respondi, sabendo que conhecia muito aquele senhor, mas não lembrava quem era. Aquilo estava me incomodando, quando fui salvo por uma lembrança de fato anterior. O mesmo ocorrera com outra pessoa e apenas matei a charada quando fui servido por ela mesmo, no Amarelinho da Cinelândia. Mesmo conhecendo aquele garçon há mais de 20 anos, garçon de calção de banho na praia é covardia! No outro caso, não era garçon, era o maitre noturno do Nino e – agravante – era o Ademar, meu fornecedor de uísque!
3. Jantava lá com alguns amigos, quando o jornalista Carlos Castelo Branco, o Castelinho, chegou na nossa mesa e pediu:
Mario, eu tenho que pegar agora um avião com o Presidente e comitiva e, apanhado de surpresa, estou sem gravata. Empresta a sua? A doação compulsória foi feita, sem mesmo poder descontar do Imposto de Renda.
Não vou falar da qualidade da comida, mas se quiser saber, pergunte à minha cunhada – Lúcia Aguiar – em Fortaleza, que guarda a lembrança de uma truta com amêndoas lá degustada há mais de trinta anos.

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