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Me leva que eu vou

Muito para mim é tão pouco e pouco eu não quero mais. Por isso, já desenhei algumas premissas que não devem me abandonar. Parceiras …

Muito para mim é tão pouco e pouco eu não quero mais. Por isso, já desenhei algumas premissas que não devem me abandonar. Parceiras de fé. Pura arrogância  ou privilégio de quem sabe qual a cicatriz que ainda dói. Jamais quero perder o dever de me indignar e reclamar e o direito de me emocionar e me encantar. Mesmo sabendo que jamais é um lugar que não existe. A indignação e a reclamação, desde que argumentadas, representam ingredientes da roda viva, um sopro de cidadania, um eterno buscar mais. E a emoção e  o encantamento simbolizam a vida que ainda pulsa.

No domingo, literalmente reclamando de barriga cheia porque tinha que fazer plantão, experimentei as duas situações: o dever e o direito. Com aquele frio, fui possuída por uma vontade de ficar em casa, tipo “lagarteando” com a filha Gabriela Martins Trezzi, ver um DVD, ouvir pelo milésima vez o mesmo CD, reler um livro do Caio Fernando de Abreu e comer pipoca. E existe coisa melhor (publicável para menores de 18 anos, ok ?). Mas, o sangue de Jesus tem poder. Logo, eu tenho um emprego, com carteira assinada e faço o que gosto. Deixei  de reclamar e fui cumprir as pautas.

O pit stop foi na abertura do “Mês do Idoso”, promovido pela Prefeitura, com   o baile das Rainhas da Terceira Idade. Vocês não vão acreditar. Se eu não tivesse visto com estes olhos que a terra há de comer, também duvidaria. Mais de 40 senhoras, com algum passado para contar, tiraram do armário os seus vestidos cheirando a guardado de tanto esperar e bailaram. Rodopiaram pelo imenso salão com a vitalidade que, às vezes, não tenho para caminhar até a esquina. Não portavam rugas, aquelas que tanto me preocupam. Nos seus rostos, expressões recém-esculpidas de felicidade.

Um vestido branco todo rodado, com rendas na barra, adereços na cor verde, uma faixa de Rainha e um pouco de maquiagem, na dose certa. Assim, a porta-estandarte de um Grupo de Terceira Idade, com quase 70 anos, pisou na pista de dança e sacolejou ao som do samba-enredo da Mangueira. Não satisfeita em mostrar que tinha samba no pé, a senhora ainda entoava: “Me leva que eu vou, sonho meu, atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu”. Quando a música cessou, em momento algum a senhora animada esboçou qualquer sinal de cansaço e emendava uma dança na outra. Com muito fôlego.

Balões, bebida controlada, moçoilos gentis e um conjunto tocando música ao vivo (sim, como nos velhos tempos, alguém lembra??) completavam o cenário do Baile das Rainhas na abertura do “Mês do Idoso”, com representantes de grupos de terceira idade. Ou seria melhor idade? Ou ainda, politicamente correto, a chamada Segunda Juventude? O nome não mudaria a fisionomia daqueles dançarinos. Nem tiraria o ânimo das senhoras à espera de um namorado, um homem com quem pudessem dividir algumas idéias, jogar uma partida de canastra ou simplesmente deixar o resto do tempo passar.

Depois de cumprir as outras pautas e quase congelar ao saber que o tempo que iria passar durante a semana seria gelado, segui para meu “Lar Doce Lar”, ainda a tempo de curtir um pouco meu afilhado e sua carinhosa namorada. Lá, me aguardavam, também, a minha mãe, que experimenta a Segunda Juventude, e a minha irmã, que tem se mostrado companheira na indignação e no encantamento. Em minutos, a sala recebeu o pó de pirlimpimpim da criança adolescente Gabriela, que voltava toda animada após algumas horas com seu pai e de curtir um cineminha que ela ama.

O plantão e a tristeza de quem não tem que fazer plantão. As lições de maturidade da porta-estandarte que só portava mesmo alegria. O salão enfeitado com coisas artificiais, quando o maior adereço era o sorriso de quem já acumulou alguma coisa nesta vida. E o retorno agradável para o abraço coletivo de parte da família (faltou meu irmão, a amiga/cunhada, a afilhada e o mano/amigo/companheiro/compadre/tudo de bom que já sei foi). Tudo isso me deixou furiosa de indignação, imaginando que talvez a minha Segunda Juventude não seja tão completa. E transbordando encantamento e emoção. 

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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