Colunas

Medo de chuva

Na minha infância, diferentemente da maioria das crianças, eu gostava de dias de chuva. Não só daquelas chuvas de verão, rápidas, refrescantes em meio ao calor, que nos levavam às ruas para os tradicionais banhos de chuva. Mas gostava também de temporais, chuvaradas, trovoadas. Principalmente à noite, quando me sentia confortável no aconchego do lar. 

Mas nada é eterno. Já na juventude, aos poucos fui percebendo que se para mim era possível sentir segurança em dias de chuvas fortes, para tantas outras pessoas, a situação era diferente. Bastava acompanhar pelo noticiário o número de pessoas obrigadas em áreas de risco, como encostas de morros e outras alagáveis, para perceber o quanto o descontrole climático era perigoso.

Em meus tempos de jornalismo diário, principalmente no Diário Gaúcho, onde trabalhei com pautas populares, ampliei minha visão a respeito do assunto. Muitas vezes fomos cobrir alagamentos e enchentes, em áreas de periferia das cidades da Região Metropolitana de Porto Alegre.

Em 2024, eu já não estava mais no jornalismo diário. Com isso, não acompanhei, como repórter, o drama provocado pela histórica enchente daquele ano. Mas, não poderia ser diferente, me vieram à memória as histórias contadas pelos meus avós sobre a enchente de 1941.

Além disso, indiretamente, acompanhei pelo trabalho dos colegas jornalistas o drama vivido por outras pessoas. E desta vez não só moradoras de periferias e áreas de risco, mas também de regiões centrais das cidades. 

Eu mesmo, que moro numa região de Centro, fiquei durante algum tempo com uma espécie de trauma de som de helicópteros, pois, durante a enchente, todos os dias era acordado por um, com o qual era feito um monitoramento da situação. Pois agora, já idoso, devido a esses acontecimentos, passei a ter muito receio de eventos climáticos como temporais e vendavais, como o de quinta-feira (6/8) à noite.

Autor

Renato Dornelles

Jornalista, escritor, roteirista, produtor, sócio-diretor da editora/produtora Falange Produções, é formado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) (1986), com especialização em Cinema e Linguagem Audiovisual pela Universidade Estácio de Sá (2021). No Jornalismo, durante 33 anos atuou como repórter, editor e colunista, tendo recebido cerca de 40 prêmios. No Audiovisual, nos últimos 10 anos atuou em funções de codireção, roteiro e produção. Codirigiu e roteirizou os premiados documentários em longa-metragem ‘Central – O Poder das Facções no Maior Presídio do Brasil’ e ‘Olha Pra Elas’, e as séries de TV documentais ‘Retratos do Cárcere’ e ‘Violadas e Segregadas’. Na Literatura, é autor dos livros ‘Falange Gaúcha’, ‘A Cor da Esperança’ e, em parceria com Tatiana Sager, ‘Paz nas Prisões, Guerra nas Ruas’. E-mail para contato: [email protected]
Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.