Face a minha dificuldade, perguntando a amigos mais chegados como conseguiam conviver comigo, Monserrat explicou-me o óbvio: eu era o único obrigado a freqüentar-me full time.
Na última crônica, escrevi que fui “cassado”. De fato, fui caçado. O jornalista e amigo Carlos Bastos tirou-me do apartamento desocupado onde eu me escondera, poucas horas antes dele ser arrombado pela polícia. Bastos, sabedor que haviam colocado um colega nosso no “pau-de-arara” para dizer onde eu estava, achou mais seguro fazer o meu traslado.
Vou pagar o vacilo do “cassado” com um exercício que faz parte da terapia de ativar a memória. Os que não moram no Rio me perdoem, mas, por compensação, só não estar com dengue ou ser alvo de bala perdida já é lucro.
À cata de alguns livros e de outras coisas para comprar, desci no final de Ipanema, defronte ao Bar Vinte, ponto final do bonde que lá fazia a volta e onde o arquiteto Paulo Case plantou um obelisco vítima de muitas críticas, mas não minhas.
Como o primeiro nome da Rua Visconde de Pirajá era Vinte de Novembro, esse bar tinha o mesmo nome da rua, assim batizada quando a Baronesa de Ipanema, naquele dia de 1888, comemorou 50 anos.
Achei os livros na Livraria da Travessa, onde o amigo e jornalista Flávio Tavares, em junho de 2004, lançou o livro O Dia
Ao caminhar pela rua rebatizada como Visconde de Pirajá em 1917, mais eu era assaltado por lembranças daquela via que, em 1949, na minha primeira viagem ao Rio, surpreendeu-me com uma imensa placa, ao lado da Igreja, na Praça da Paz, que anunciava em letras garrafais: Aos domingos, missa das 10 com ar-condicionado.
Passei defronte ao nº 499, onde havia o Zeppelin do alemão Oskar, local que servia chope supergelado para, entre outros, a cronista Elsie Lessa, Betty Faria, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Nelson Motta.
Quando, em 1968, o alemão vendeu o bar para o Ricardo Amaral, a clientela mudou de perfil, bem mais jovem e com uma parcela deslumbrada com a maconha. Sempre que passava por lá, me divertia em ver quais as mesas com Coca-Cola, alternativa para os que puxavam baseados, pois acreditavam que o álcool “cortava a onda”.
Eu, “careta” fiel aos meus princípios, era brindado pelo gerente, Wilson, com a minha dose de um puro escocês.
Certa vez, estava sozinho numa mesa lá e recebi a companhia do Baden Powell, que, após terminar o seu uísque, pediu-me licença, juntou três cadeiras, chamou o Wilson, pediu para ser acordado à meia-noite e, nem cinco segundos depois, dormia.
Em 1972, aquele antigo bar de um alemão, comprado pelo paulista Ricardo e freqüentado por cariocas de todo o Brasil, cedeu o espaço para o “Oba Oba”, onde belas mulatas rebolando ao ritmo de samba arregalavam os olhos de turistas de todo o mundo.
Mais adiante, no mesmo lado, havia a Churrascaria Carreta, cujo executivo, o Teixeirinha, se indagado como ia, tinha o bordão na ponta da língua: “Com a sua chegada, muito melhor”. Lá na Carreta, almocei algumas vezes com Tom Jobim, com aquele mesmo traje de jogging que o ditador de plantão, general Figueiredo, deu entrevista em rede nacional de TV. Eu, com farda de executivo.
Foi lá, também, a comemoração da primeira eleição do Márcio Braga como presidente do Flamengo, em 1977. Terminada a apuração, na sede do Morro da Viúva, Marco Aurélio Moreira Leite carregou para lá a sua bandinha, e a festança atravessou a madrugada.
Foi na Carreta, onde então trabalhava, que Antônio Antenor Soares foi rebatizado por Vinicius de Moraes como Garrincha, diante da sua semelhança com o jogador. Hoje, proprietário de diversos restaurantes, dribla a concorrência servindo excelente comida.
Na Praça da Paz, do lado no qual prossegue a Visconde de Pirajá, Paulo Casé, no resgate que fez da memória do bairro, colocou na calçada, defronte a um edifício, uma placa avisando que João Saldanha morara lá.
Encontrei Casé no “Aux des Magots” em Paris e aproveitei para checar uma história sobre a dificuldade de escolher qual das antigas residências do Saldanha, pois ele se casou diversas vezes e sempre se mudava para outro endereço em Ipanema mesmo.
Casé confirmou e disse que a escolha foi para o edifício onde Saldanha não permitiu alteração na fachada.
Ainda na Praça, numa cobertura, funciona a filial da DPZ, a agência de propaganda do Duailibi, Petit e Zaragoza e para a qual fiz muitos “frilas”.
À esquerda da igreja, esquina com Maria Angélica, funcionou durante mais de 10 anos a Agência Pax de Turismo. Numa noite em que resolvi comprar lá uma passagem aérea, não achei a agência, pesquisei e descobri que havia sido apenas um estande “provisório”, ocupando um terreninho, parte da igreja, parte da calçada. Cheguei à conclusão de que o fiscal da prefeitura, naquela área, tinha sido transferido, aposentado ou morrido, antes que abrissem uma Comissão Municipal de Inquérito na Câmara de Vereadores.
Inté.
PS. Não esqueci que no início da Visconde de Pirajá – Praça General Osório – em 1965, no Bar Jangadeiro, Albino Pinheiro e outros deram início à Banda de Ipanema. Nem da mui lendária Sorveteria Morais. Apenas concluí antes que a lâmpada da memória pudesse queimar.


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