Colunas

Memórias sem nenhuma importância

Com três pequenos anúncios na página policial, publicados em dias subsequentes, cada um com a foto de um corretor de imóveis abaixo de “Procura-se”, …

Com três pequenos anúncios na página policial, publicados em dias subsequentes, cada um com a foto de um corretor de imóveis abaixo de “Procura-se”, lancei uma empresa imobiliária em Salvador, BA.

O “Procura-se” referia-se ao óbvio: a corretora procurava clientes.

Quando, em 1977, fui implantar a Agência da Casa na Rede Globo, separei-me. Aluguei de minha amiga Lia Moreira um apartamento nu como Adão sem a folha de parreira. A Rede Globo resolveu mudar sua logomarca, e o trabalho só não enlouqueceu quem já era.

Sem cabeça para tratar da minha vida, e como Cyro del Nero e eu tínhamos acabado de fechar um escritório de arquitetura promocional, chamei os carpinteiros e entreguei os desenhos de alguns móveis básicos, entre eles um cubo com pouco mais de 40 cm e apenas um lado aberto. Uns 30 deles serviram como estantes, mesas auxiliares, porta-copos, etc.

Alguns anos depois entrei na Sears em Botafogo e eles estavam vendendo a “novidade”.

Impossível não lembrar que, em 1960, “inventei” a poltrona do Teatro de Equipe com assentos e encostos de vulca-espuma, sobras gratuitas de modelagem de uma oficina de sutiãs.

Numa festa de fim de ano do Departamento de Comunicação da Rede Globo, no Lunas Bar, sentei-me entre Pelé – um contínuo esperto – e um contínuo novato. Como todos os garçons e o pessoal do staff vieram me cumprimentar, o calouro comentou:

– Mas todo mundo conhece o “seu” Mario!

Pelé emendou:

– Na Zona Sul, se não conhecer, é novo na profissão.

Magaldi, quando vice-presidente social do Flamengo, criou o baile Vermelho e Preto, fim dos anos 1970. Ele, eu e respectivas saímos da segunda versão quase no fim da madrugada e com fome. Tudo fechado, sugeri o Lunas Bar. Chegamos com ele porta cerrada, bati na porta a minha senha e sentamos com os garçons para degustar a ceia da madrugada.

Quando eu ia sozinho e participava do ritual gustativo, Pepe, o dono, me deixava em casa.

Tempos de muito trabalho, muita saúde e alguma grana.

Dirigi a agência Kadette Propaganda onde, pela única vez na minha vida, leitores pediram a republicação de um anúncio.

Era de uma pequena loja de som de dois engenheiros que faziam a instalação onde o cliente quisesse.

Consegui passar confiabilidade. No anúncio, uma avó, “Dona Clarinha”, volta à loja para agradecer o som instalado para o neto. A ideia foi minha, com um texto belíssimo de Capinam (Soy loco por ti, América)

Dona Clarinha era surda.

Desmemória

A idade não ajuda, mas não justifica.

Há muito cansei de ler colunistas de TV escrever que o capítulo de uma telenovela, com cerca de 50%, batera o recorde de audiência do gênero.

Muitas telenovelas saíram do ar antigamente com o último capítulo acima de 90%.

Acho que cada especialista deve conhecer o universo sobre o qual escreve.

Eu ainda não tinha sete anos, não estava na Europa na Copa de 1938, mas sei que Leônidas da Silva, o Diamante Negro, apresentou ao mundo a acrobacia futebolística batizada como “bicicleta”. E nem sou do ramo.

O senador Mão Santa, querendo fazer gracinha com a carta de renúncia do seu partido, disse-a melhor que a carta-testamento de Vargas, mas que abdicava de dar um tiro no ouvido, para não deixar a cara-metade viúva.

Mas o que é isso, Mão Santa?!

No coração, Mão Santa, o tiro que o Getúlio se deu foi no coração. E nem sou do ramo. 

Memória olfativa

Num domingo, 2 de novembro, os ginasianos Yolanda e eu, como sempre fazíamos, depois da missa das 10, na Igreja do Calvário, no bairro paulistano de Pinheiros, dávamos às mãos e descíamos pelo Cemitério São Paulo.

A mistura do perfume das flores dos Finados e a loção Regina da namorada, o vento não conseguiu levar.

Certa vez, Roberto Marinho chamou-me de rapaz. Respondi:

– O senhor é das poucas pessoas que inda podem me chamar de rapaz.

Ele estava com 87 anos e eu com 60.

Eu viajava sozinho pela Europa, em 1972, e recebi no hotel, em Roma, uma carta da então companheira, amargura do princípio ao fim. Peguei um postal no próprio hotel e mandei:

“Quando acordar alegre, cante uma canção e escreva uma carta. Quando triste, cante uma canção”.

Hoje, sexta-feira, 25 de setembro, acordei às 6 horas, alegre como quase sempre. Desafinado total, não cantei, mas estou enchendo o mundo de e-mails. Este aqui é pra ti.

Inté.

Autor

Mario de Almeida

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.