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Meu instinto feminino

O jornalista e escritor britânico Max Hastings conta que seu primeiro editor num jornal o aconselhou, quando fosse entrevistar políticos, a perguntar a si …

O jornalista e escritor britânico Max Hastings conta que seu primeiro editor num jornal o aconselhou, quando fosse entrevistar políticos, a perguntar a si mesmo: Por que diabos esse homem está mentindo o tempo todo para mim?”. Não ouvi nada semelhante, talvez porque minha educação tenha sido muito deficiente, por culpa dos educadores e principalmente minha. Mas meu instinto feminino me levou a essa desconfiança ainda na adolescência. Apesar de eu ter sido tapeado mais de uma vez, acho que com o tempo meu instinto foi ficando cada vez mais feminino e com ele passei a me defender não apenas dos políticos como dos jornais.

Manto verde oliva

Talvez não deva descartar a influência da ditadura — cresci sob o manto verde-oliva. Tínhamos de ler os jornais pensando mais no que calavam ou insinuavam do que no que noticiavam. Isso pode ser muito danoso. Às vezes ficamos tão de olho nas sombras que se agitam nos bastidores que perdemos o que se passa no palco.

Gigantes e nanicos

Não quero ser cínico, mas talvez nossa confiança na imprensa nanica fosse porque ela dizia o que queríamos ouvir. Não era pouco, naquele tempo. Lembro, por exemplo, da sensacional reportagem sobre a morte de Wladimir Herzog, escrita em colaboração por um grupo de jornalistas. Enfim, o que quero dizer é que a imprensa nanica tinha uma posição clara. Você podia concordar ou não com essa posição, mas não precisava ficar gastando o bestunto para saber qual era. Hoje a grande imprensa é um caderno de classificados, páginas e mais páginas de pechinchas. São tantas pechinchas e às vezes tão inconfessáveis e escrotas que dá um trabalhão ler. Ler? Eu me sinto Sherlock Holmes com uma lupa na mão, com a desvantagem de não ser um detetive tão bom assim.

Opinar, informar

Fui repórter por um mês exatamente, despedido por incompetência, com toda razão. Mas ainda lembro de uma lição: informe, não opine. As opiniões deviam vir entre aspas, citações de gente entrevistada. Mas isso, me parece, era menos em nome da isenção do que para tirar o nosso e o do jornal da reta. Bastava citar as pessoas certas, na ordem certa, com o destaque certo e, pronto, tínhamos um belo editorial em vez de uma reportagem.

Não tenho nada contra opiniões, mesmo as mais delirantes, desde que venham com dados e argumentos que as justifiquem ou tentem justificar. Nós, leitores, temos direito a esses dados e argumentos. Temos direito a que esses dados não sejam distorcidos e que os argumentos sejam claros. O que vamos fazer com eles é problema nosso, não do dono do jornal.

Objetividade

Acho que objetividade é como Deus e as notas de cinco mil dólares, de que todo mundo ouviu falar, mas que ninguém viu nem, muito menos, botou a mão. Mas não é por isso que devemos relaxar e gozar. Pelo contrário.

Autor

Ernani Ssó

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