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Meus argumentos contra o Verão

Por Márcia Martins

Podem me acusar de tudo. Insistente. Teimosa. Exigente. Organizada demais quase atingindo um grau de neurose (pura maldade). Ciumenta (sim, jamais neguei). Carinhosa (usando o poder da propaganda). Talvez um pouco modesta (contém ironia). Tá legal, eu aceito os argumentos (e já saio cantando a música do Paulinho da Viola). Mas jamais afirmei, pensei, informei, confessei ou escrevi que gosto do Verão. Não, simplesmente sempre me manifestei com todas as minhas teorias, autos, bulas, dogmas, teses e tratados contra o Verão. Então, apesar de acumular muitas incoerências, não sou daquelas que reclama do frio, quando está frio, e do calor quando está calor. Tenho um pensamento firme: eu não gosto do Verão.

Os dias quentes me causam desânimo. Uma certa apatia. Uma dose elevada de indisposição. Pitadas generosas de preguiça. Uma malemolência que combina muito mais com uma tarde na baiana Itapuã do que um dia inteiro cumprindo afazeres em Porto Alegre. Uma vontade de não fazer nada. Um corpo atirado no sofá da sala, zapeando os canais de televisão fechada, mas sem fixar a atenção em nada. Um desassossego que não me estimula a colocar a leitura em dia. E, para piorar, agora que já vivi mais de meio século e entro na casa dos 60 em junho, enfrento os males da pressão baixa, que é agravada com a queda da temperatura.

E o que comentar das noites de Verão? Depois da pessoa (eu, pelo menos) resistir ao calor insuportável durante o dia, caminhar diversas vezes pela Rua dos Andradas e observar os rostos pingando suor, as gordurinhas expostas nas roupas mais cavadas e ousadas, a chegada da noite me encontra um trapo, exaurida, exausta, cansada e sem vontade. Dependendo do local, as noites podem representar a sucursal do inferno. Porque fora do ar condicionado, não há salvação. E o uso do ar condicionado, ligado durante toda a noite, significa aumento no consumo da energia elétrica e uma elevação brusca no valor da conta de luz. Mas este, infelizmente, é um gasto que não pode ser de jeito nenhum dispensado em “Forno Alegre”.

Sem mencionar a formosura do Outono, Inverno e da Primavera. As paisagens, as neblinas, as folhas caindo, as árvores balançando, os ventos a provocar barulhos nas janelas, nas memórias, a remexer no passado. Sem considerar a poesia que existe no Outono, Inverno e na Primavera. As rimas, os versos, os sonetos que brotam das tempestades, das flores se abrindo, da melancolia outonal e dos cenários aconchegantes. Sem falar na beleza das pessoas. Elegantes. Agasalhadas. Com seus casacos, suas echarpes, suas pashminas, seus gorros e chapéus. Sem nenhum pingo de suor escorrendo a borrando a maquiagem, tão essencial para disfarçar e camuflar as rugas que, no meu caso, são protagonistas.

Sei que alguém virá com aquele argumento de ninguém é elegante no Inverno com um pijama horrível de pelúcia (já com o tecido carcomido), uma segunda pele por baixo, mais duas blusas de lã, uma polaina de uma cor que briga com todas as outras das vestimentas e a indefectível pantufa de bichinho. Mas vamos combinar que este caso é uma exceção. E a pessoa só fica nesta condição horripilante e deselegante descrita acima na hora de dormir. Então, todos os meus argumentos contra o Verão apresentam uma boa sustentação. E como ninguém ainda descobriu onde compro passagem para a Porto Alegre da propaganda do prefeito Marchezan, vou passar as minhas férias em algum lugar mais frio.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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