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Meus esconderijos do tempo

Quando nem se percebe, é metade de agosto. Nada menos do que oito meses completos desfilaram pelo palco de 2010, que teve sua estadia …

Quando nem se percebe, é metade de agosto. Nada menos do que oito meses completos desfilaram pelo palco de 2010, que teve sua estadia prejudicada pela Copa do Mundo na África e sofrerá as interrupções necessárias ao pleito eleitoral. Nem todas as promessas de final de ano foram cumpridas, com certeza. Para falar a verdade, a maioria terá que refazer os planos escritos sob o embalo das taças de champanhe do final do ano para 2011, 2012 e quantos mais nos forem permitidos. Já que perdemos nossas melhores intenções na rotina frenética dos dias de 2010, vamos aproveitar os quatro meses restantes.

Antes que todos enlouqueçam com a lista de presentes de Natal e festas de final de ano, por que não colocar fim àquela desavença sem nexo com a amiga de seu emprego anterior? Por que não apagar da memória a dor daquela separação? Por que não promover um almoço em família no domingo e dizer em alto e bom som como você os ama? Por que não sufocar sua filha de tanto abraçar e beijar? São aproximadamente 120 dias para pequenas ações que podem reduzir o peso da lista de promessas dos próximos anos.

Faça chuva, faça sol, jogue conversa fora, programe aquele happy num bar da Cidade Baixa, vá ao cinema num shopping sábado à tarde e enfrente os sons das risadas dos adolescentes, passeie pelo Brique agora enfeitado com a cor da democracia panfletária. Não prorrogue a declaração de sentimentos e nem espere a restituição das emoções em parcelas. Mude a alimentação, seja mais saudável, caminhe pelos parques, aproveite o entardecer para iniciar um flerte (nossa, que termo ultrapassado!) e namore sem hora para voltar à realidade nas noites de lua cheia. E nas noites de lua crescente, minguante e nova. Ame muito.

Como sentenciou Mario Quintana no livro Esconderijos do tempo, no belo poema “Seiscentos e sessenta e seis”, “quando se vê, já são 6 horas: há tempo… quando se vê, passaram 60 anos… tarde demais para ser reprovado”. Por isso, sigamos o conselho do poeta. Nada de perder nenhum minuto remoendo o que não fizemos, chorando o que gostaríamos de fazer enquanto a vida acontece do lado de fora da nossa janela, sempre fechada para os raios de sol ou os pingos da chuva. Assim como sugeriu Quintana, vamos terminar 2010 jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

Não pensem vocês que escreverei sempre orientações que pendem para o estilo de autoajuda. Nem que virei fã do Paulo Coelho, com o máximo respeito àqueles que idolatram o escritor. Longe de mim ser PhD em qualquer assunto que envolva sentimentos. Sempre fico em segunda época nesta matéria. Este texto brotou quando percebi o tempo que se perde para explicar o que não se fez, o amor não doado, o abraço adiado, o compromisso não honrado, o relógio parado.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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