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Minas da morte

Irretocável o espetáculo midiático do resgate dos 33 mineiros soterrados no Chile, que se encontravam presos a mais de 600 metros de profundidade na …

Irretocável o espetáculo midiático do resgate dos 33 mineiros soterrados no Chile, que se encontravam presos a mais de 600 metros de profundidade na cidade de Copiapó, situada no norte chileno. Jornais, emissoras de televisão e de rádio, portais e outras mídias enviaram correspondentes especiais, abusaram dos recursos gráficos, depoimentos dos primeiros mineiros salvos, fotos dos encontros com os familiares e opiniões de psicólogos e especialistas sobre a nova vida, após o confinamento de 69 dias. Para divulgar o minucioso trabalho de resgate, a mídia impressa, eletrônica e virtual esbanjou equipamentos e recursos humanos.

Seria quase impossível não se emocionar com a cobertura daquele que é considerado o maior acidente de mineração na história do Chile, cuja trajetória econômica sempre esteve alicerçada ao sucesso da atividade. Ou ficar impassível aos abraços dos mineiros ao rever familiares. Afinal, desde 5 de agosto, depois do desmoronamento do túnel de acesso à pequena mina San José de cobre e ouro, que o mundo acompanha angustiado a subvida dos mineiros soterrados e os estudos para o resgate dos trabalhadores chilenos. O capítulo final do retorno dos mineiros à vida acima da terra certamente interessaria ao planeta.

Durante o início do resgate, o twitter bombava sobre o assunto, nem o 2º turno das eleições presidenciais conseguiu roubar a cena. Pessoas relatavam chorar de emoção ao ver os mineiros sendo retirados pela cápsula. Saudações ao milagre da vida pipocavam. Todos queriam ver o mineiro cinegrafista, o mineiro esportista, o mais velho, o pai que não sabia ainda da gravidez da esposa e tantos personagens dos inquilinos forçados da mina San José.

Posso estar enganada, uma vez que não tenho acesso a todos os veículos de comunicação existentes. Mas arrisco dizer que ninguém se lembrou, neste período de confinamento dos 33 chilenos, de escrever sobre as condições precárias da vida destes trabalhadores no exercício do ofício, muitas vezes, passado de geração a geração pela falta de melhores oportunidades. Ou sobre os riscos a que estão expostos pela secular exploração humana, pela eterna cobiça do capital, pela ausência de uma legislação específica, pela insalubridade da profissão e pela cegueira do mundo.

Não tenho bola de cristal e nem sou profeta, mas, infelizmente, não será o último acidente envolvendo mineiros em vários locais do mundo. Nem o último a ser noticiado pela mídia onipotente com suas reportagens especiais e coberturas ao vivo. Mais e mais trabalhadores irão envolver-se em tragédias por desafiar a terra, a natureza e seus mistérios. Mais e mais mineiros poderão sofrer com novos desmoronamentos enquanto a exploração da miséria lapidar mais do que a novela da vida diária. Sabe-se lá a quantos e quantos resgates ainda iremos assistir?

Sim, o resgate dos mineiros é um milagre da vida. Sim, estarem todos, aparentemente, com sinais mínimos de serenidade é um milagre da vida. Sim, as cenas de reencontros dos soterrados com seus familiares são um milagre da vida. E sim, esta vida produz milagres incríveis, como a sobrevida dos mineiros nestas minas da morte.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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