Na minha carreira de repórter remunerada nos três jornais em que atuei nestes 27 anos de profissão, escrevi matérias que me orgulharam muito e serviram para, durante um tempo, alimentar o tal ego do jornalista. Contei sobre os destinos dos principais produtos das exportações gaúchas e do esforço em diversificar mercados. Entrevistei empresários de peso no PIB estadual e nacional. Falei sobre as fusões das agências de propaganda no início da década de 1990 e até mesmo sobre os crocodilos importados do Zimbábue. E até representando um destes veículos, fui, numa missão jornalística, a Taiwan.
Sempre procurei dividir igual o meu tempo entre a vida profissional e a particular. Às vezes, dependendo do patrão mais capitalista, a divisão deixava a desejar. E gostava do que fazia. Apesar dos plantões, dos feriados. Do imprevisto. Da dinâmica do jornalismo. Sem ser nunca obrigada a nada, fui cumprindo pautas e sugerindo outras. Mas ainda acreditava que estava devendo ao meu currículo a minha melhor reportagem. Apenas eu me cobrava disso. Mais ninguém.
Hoje, afastada do murmurinho das grandes redações, beneficiada com a folga em feriadões e os domingos inteiros dedicados à família, lapido todo dia um pedaço adolescente da minha melhor reportagem. Licenciada, enquanto o INSS permitir, dos leads, do dead line e dos furos jornalísticos, escrevo todo o dia uma nova sugestão de pauta para a minha melhor reportagem. E percebo que ela está pronta. Não é necessário copy desk (tem gente que nem sabe o que é isso), nem uma repaginada no layout e nem um título mais chamativo. Aliás, qualquer nova edição é um desperdício. Jamais sairá outra tão perfeita.
A minha melhor reportagem tem um período ainda curto de vida. E ainda é atual. Nem completou 16 anos. O suficiente para me mostrar como se pode ser tão feliz em tão pouco tempo. A minha melhor reportagem já tem vida própria, embora, às vezes, dia e noite, me peça colo e invada as minhas reuniões internas de pauta. A minha melhor reportagem faz carreira escolar sozinha. Mas se precisar, pode chamar a Editora-Chefe. E conhece o seu potencial. Por isso, é autorizada a interromper qualquer notícia minha para entrar em edição especial. É sempre a minha prioridade.
Tem um nome ou título. Tem um corpo. Tem uma grife. Tem conteúdo. Tem postura. Tem passado, tem presente e terá futuro. Levou tempo demais para ser feita. Nove meses necessários e inesquecíveis. Não precisou de muito tempo para ser escolhida a mais bonita. Já na maternidade, carregava esse título. E nem esperou demais para encher a minha vida de emoção. No primeiro ano, eu sabia que ela era especial e acompanharia todos os meus sentimentos. A minha melhor reportagem chama-se Gabriela Martins Trezzi. A minha única e amada filha.

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