– Mario de Almeida?
– Sim.
– Nicolás Guillén.
– El poeta de Son entero?
– Si.
Esse diálogo, aparentemente surrealista, foi real e aconteceu numa noite de 1961, em Porto Alegre, onde ele havia ido para falar com Brizola e haviam sugerido a ele que me procurasse. Dia seguinte, às 9 da manhã, o presidente do Comitê de Artistas e Intelectuais de Cuba fez uma palestra no Teatro de Equipe e, às 14 horas, era recebido pelo governador.
Em meio a uma cena da minha peça O Despacho, com o Peréio, um espectador se levanta e sai gritando:
– Vão trabalhar, vagabundos.
Fiquei feliz, pois era uma prova de que minha peça mexia com as pessoas.
A pedido do então governador Brizola, fizemos uma sessão especial de O Despacho para ele e a patota dele. Na saída, ele pediu que marcássemos uma ida ao Palácio para conversarmos. Ao entrar em seu gabinete, ele soltou:
– Mas bah, tchê, eu não sabia que o teatro era um canhão!
Num dia de meu aniversário, Rachel presenteou-me com o Dicionário Brasileiro de Teatro. Fiquei feliz em estar lá no dicionário e pelo gesto delicado da minha filha.
Numa festa junina, Carla, a filha, então com 5 anos, ganhou numa barraca o direito de escolher um brinde. Recusou diversas sugestões e escolheu uma caixinha. No Dia dos Pais, entregou-me a caixinha com a seguinte recomendação:
– Para você guardar suas abotoaduras.
No dia em que a ditadura ia libertar minha então companheira, Lara de Lemos, o coronel Fiúza, chefe da repressão no Rio, chamou-me em seu gabinete:
– Conhecemos seu passado na Imprensa e o senhor foi objeto agora de uma rigorosa investigação. De fato, nada consta a seu respeito. O senhor mudou de ideias?
– Coronel, sou mais um Andrada e Silva que um Tiradentes. Um dia a gente se encontra. Passe bem!
No segundo ano do então Curso Clássico, a professora de Química ameaçou-me, em aula, de me reprovar. Fiz um documento à escola pedindo a presença de um inspetor federal no exame oral, o que foi feito. Sorteei o ponto, comecei a falar e, logo no início, disse “a”, última linha da página 70 do livro de Sá Fiotti, “penas”, primeira linha da página 71. Fui imediatamente dispensado com nota 10. Eu havia decorado o livro.
Em 1975, eu ainda não era um “global” e fui contratado pela Globo Rio para organizar a entrega dos prêmios Personalidade Global, no Hotel Nacional, Brasília. Antes do coquetel, havia um show da “Divina” Elisete Cardoso e tomei conta dela com todas as mordomias cabíveis, inclusive flores. Dia seguinte, no voo de volta, ela me disse:
– Foi um privilégio conhecer você, Mario.
E me sapecou um beijo na bochecha.
– E eu ganhei o privilégio de, além de ouvir a cantora, ouvir você falar.
Anos depois de conhecer Vinicius, o Vininha para Tom Jobim, nos reencontramos no Antonio’s. Então ele decretou:
– Você é o Almeidinha.
Numa manhã de 1957, acordo no Hotel Majestic, de Porto Alegre, onde estava morando, com o seguinte telegrama:
Teresa, você é a coisa mais bonita que eu vi até
hoje na minha vida, inclusive o porquinho-da-índia
que me deram quando eu tinha seis anos.
Era de minha namorada e por conta desse Madrigal tão engraçadinho do Manuel Bandeira, muita gente percebeu, por muitos dias, que eu flutuava pelos céus da cidade. Não consegui responder, mas tempos depois me lembrei de que o mesmo Manuel Bandeira tinha uma bela resposta:
O IMPOSSÍVEL CARINHO
Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
– Eu soubesse repor –
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!
Inté.

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