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Muita informação digital sem sabedoria traz angústia à sociedade

Nunca tivemos tanto acesso à informação. Em poucos segundos descobrimos o que acontece do outro lado do mundo, pesquisamos sintomas de uma doença, acompanhamos crises econômicas, guerras, eleições, novas tecnologias e opiniões sobre qualquer assunto. O conhecimento parece estar ao alcance de um clique.

Mas, curiosamente, nunca vimos tanta ansiedade, insegurança e dificuldade para tomar decisões.

Além das pesquisas de opinião realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião, a literatura sociológica mostra que a tecnologia eliminou barreiras de tempo e espaço, conectou pessoas, acelerou processos e democratizou o acesso ao conhecimento. O problema não é mais a quantidade de informação disponível, mas sim a nossa capacidade de compreendê-la.

Vivemos cercados por dados, notícias, vídeos, estatísticas e opiniões. Recebemos muito mais informações do que somos capazes de processar. Como consequência, surgem fenômenos típicos da nossa época: pessoas que pesquisam compulsivamente sobre doenças, outras incapazes de se desconectar do celular, consumidores de conteúdo que acumulam informações sem conseguir organizá-las ou utilizá-las.

A informação tem deixado de gerar conhecimento, passando a produzir angústia. É comum encontrar entrevistados que conhecem inúmeros problemas do país, acompanham notícias políticas, econômicas e sociais, mas sentem enorme dificuldade para organizar tudo isso e formar uma opinião consistente. O excesso de informações acaba produzindo confusão, desconfiança e, muitas vezes, paralisia.

Nos últimos anos, tenho observado um fenômeno semelhante em diferentes pesquisas do IPO. As pessoas estão cada vez mais informadas e, ao mesmo tempo, mais inseguras sobre suas escolhas. Isso aparece quando falamos de política, de consumo, de investimentos e até das decisões mais simples do cotidiano, inclusive sobre a forma de educar os filhos. 

O motivo é relativamente simples. Informação não produz, automaticamente, conhecimento. E conhecimento não produz, automaticamente, sabedoria.

Entre uma etapa e outra existe algo que nenhuma tecnologia consegue substituir: a experiência, a reflexão, o pensamento crítico e a capacidade de conectar diferentes informações para compreender a realidade. 

Temos que viver uma jornada real para conseguirmos avaliar e definir o que percebemos sobre a experiência vivida. Quando nos envolvemos em experiências práticas como ler um livro, trocar ideias com outras pessoas sobre os melhores candidatos da eleição, montar uma planilha financeira para organizar as contas da casa ou reformar uma roupa ou móvel, adquirimos conhecimento e desenvolvemos sabedoria.

Durante muitos anos acreditamos que o acesso à informação resolveria grande parte dos problemas da sociedade. Hoje percebemos que isso era apenas o primeiro passo. O verdadeiro desafio é desenvolver pessoas capazes de interpretar, contextualizar e transformar informação em conhecimento útil.

Como pesquisadora, posso dizer que a pesquisa produz informações. Mas seu valor não está nos números. Está na capacidade de transformar dados em compreensão e compreensão em inteligência para saber fazer as perguntas certas.

No fim das contas, informação é matéria-prima. Sozinha, pode gerar ansiedade, medo e confusão. Quando passa pelo filtro da experiência, da educação e da reflexão, transforma-se em sabedoria.

Autor

Elis Radmann

Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO – Instituto Pesquisas de Opinião em 1996 e tem a ciência como vocação e formação. Socióloga (MTB 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e tem especialização em Ciência Política pela mesma instituição. Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Elis é conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) e Conselheira de Desburocratização e Empreendedorismo no Governo do Rio Grande do Sul. Coordenou a execução da pesquisa EPICOVID-19 no Estado. Tem coluna publicada semanalmente em vários portais de notícias e jornais do RS. E-mail para contato: [email protected]
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