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Muito lentamente

“Esta sinfonia dever ser tocada apenas 50 anos após minha morte.” (Gustav Mahler) Ele nasceu de uma família judia, de minoria alemã, na região …

“Esta sinfonia dever ser tocada apenas

50 anos após minha morte.”

(Gustav Mahler)

Ele nasceu de uma família judia, de minoria alemã, na região da Boêmia, atual República Checa. Muitos anos mais tarde, Gustav Mahler ainda se confessava marcado por suas origens:

“Sou três vezes apátrida!

Na Áustria por ter nascido na Boêmia;

na Alemanha, por ser austríaco; na Europa, como judeu.

Em toda parte, um intruso, desejado em nenhum lugar!”

Alguns biógrafos sugerem que este sentimento de exclusão pode ter sido uma das causas do caráter melancólico e sombrio de grande parte de sua obra. O que não o impediu de ser visto como exímio orquestrador e posto entre os maiores compositores contemporâneos. Ao longo de 1901 e 1902, Gustav Mahler se recolhe em um chalé alpino nas montanhas de Maiernigg, onde trabalha naquela que lhe renderia reconhecimento definitivo no mundo da música: sua Quinta Sinfonia, em dó sustenido menor. Para o crítico e historiador musical Deryck Cooke, uma obra com caráter quase esquizofrênico, onde convivem perfeitamente separados o mais trágico e o mais alegre dos mundos.

A sinfonia começa com uma Marcha Fúnebre, onde o solo de trumpete lembra a Quinta de Ludwig van Beethoven, composta 100 anos antes. Mas coube ao Terceiro e Quarto Movimento a tornarem famosa, mais especificamente, seu pungente Adagietto.

Trata-se de uma peça curta, com apenas 10 minutos, mas a indicação de Mahler para ser executada em Sehr langsam (muito lentamente) lhe valeu diversas e enriquecedoras versões, explicitando estados de alma, que variam desde a mais densa melancolia ao mais profundo lamento fúnebre. Maestros de prestígio executaram o Adagietto em diferentes tons e durações. Sob a batuta de Herbert von Karajan, o tema tem mais de 12 minutos. Para Simon Rattle à frente da Orquestra Filarmônica de Berlim, é mais curto, com 9 minutos. E quando Bernard Haitink, rege a mesma orquestra, o tema se extende por quase 14 minutos.

No entanto, foi em 1968, que ocorreu a versão definitiva, que rodou o mundo e alcançou a celebridade: a comovente interpretação de Leonard Bernstein, executada no dia 8 de junho, na missa fúnebre do senador Robert F. Kennedy, na Catedral de Saint Patrick, em New York.

***

Alguns anos depois, em 1971, quando filmava a versão de “Morte em Veneza, de Thomas Mann, o diretor Luchino Visconti, procura um tema denso e sombrio para traduzir a complexa alma de Gustave Aschenbach.

Foi o ator inglês Dirk Bogarde, que havia dedicado meses estudando o personagem, que sugeriu usar a Terceira e a Quinta Sinfonia de Mahler. Não por acaso, sua performance no filme lhe vale premios na Inglaterra  e França. Mais tarde, em sua autobiografia, o ator revelaria que o Adagietto o ajudou na construção do personagem e permaneceu como uma sombra de um alter ego chamado Gustave Aschenbach.

Quando Dirk Borgarde morre em 1999, deixa o pedido para ser cremado e que as cinzas fossem jogadas na sua prezada propriedade de Grasse, no Sul da França. A atriz Lauren Bacall, amiga de toda a vida, toma a frente de um grupo de amigos de cinema e teatro e faz cumprir o último desejo de Dirk Bogarde. E para ampliar a homenagear à memória do genio de Luchino Visconti, inclui a execução da Marcha Fúnebre e do famoso Adagietto.

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No dia 18 de maio de 1911, Gustav Mahler morre em Viena, então a capital do Império Austro-Húngaro. As últimas palavras que pronuncia são: “Mozart” e “Minha Almschi” (“Minha Alminha”) referência à esposa Alma Schindler.

Replicando o clima de algumas de suas sinfonias, no dia em que expira, desaba uma grande tempestade sobre Viena. Exatamente como havia acontecido em 26 de março de 1827, quando da morte de Ludwig van Beethoven. E, finalmente, ele é sepultado no histórico Cemitério de Grinzinger, o mesmo que abriga gigantes da música como Johannes Brahms, Franz Schubert, Johann Strauss, pai e filho e … Ludwig van Beethoven.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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