Cenários se transformam. Passam os anos. Alternâncias de governos. Há trocas geracionais. Mas o que nunca muda é a sobrecarga sob todos os aspectos da vida que sempre recai sobre nós, mulheres. Seja no mercado de trabalho – em que realizamos as mesmas funções ou até mais, e nem sempre com o mesmo salário que um homem -, no ambiente doméstico – em que mesmo não sendo as provedoras principais da casa, a administração fica à cargo das mulheres – e no cuidado e educação dos filhos – em que cabe às mulheres as decisões mais importantes. É claro que, como em tudo, existem exceções. Mas são raras.
A ONU Mulheres informa, na Newsletter da organização (Perspectiva Global Reportagens Humanas) de 30 de junho, que relatórios mostram que o planejamento e o cuidado domésticos, por exemplo, continuam recaindo sobre mulheres. Se tal trabalho fosse remunerado – revela a News – representaria mais de 40% do PIB de alguns países. Valor que ultrapassa setores tradicionais como a indústria manufatureira, comércio e transportes
Perguntas que podem parecer banais, num primeiro momento, como “será que há comida suficiente em casa para a semana?”, “as vacinas das crianças estão em dia?” ou “o que tem de lanche para a merenda das crianças?” são apenas algumas das muitas que encabeçam a enorme lista de tarefas domésticas que são assumidas pelas mulheres. A ONU Mulheres ressalta que isso chama-se carga mental e que as mulheres seguem carregando quase sozinhas este peso. “O trabalho invisível continua sendo majoritariamente assumido por elas”, atesta o boletim da ONU.
São tarefas que carregam um elevado peso psicológico porque envolvem a antecipação de necessidades (vacinas e remédios), planejamento de rotinas (como suprimento de estoques alimentares e consultas médicas), delegações de funções (no caso de contarem com alguma auxiliar) e garantia de cumprimento de prazos. E tudo isso, invariavelmente, recai sobre mães, filhas adultas que amparam familiares idosos e parceiras focadas na gestão do lar. Uma disparidade que persiste mesmo quando as mulheres são as principais provedoras financeiras das suas relações.
Às vezes – muitas vezes, preciso confessar – me pego pensando que um dia seremos finalmente tratadas com isonomia, recebendo as mesmas condições que qualquer ser humano, com os mesmos direitos – e que os deveres sejam também estendidos a todos (não sendo cobrados apenas das mulheres). Às vezes – muitas vezes, preciso confessar – me pego imaginando um mundo sem privilégios ou discriminações.
Como já disse Eduardo Galeano; “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos. Ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.


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