“Dizem que o cello é o instrumento que melhor se assemelha à voz humana. Mas há que fazê-lo falar como um amigo, como uma pessoa amada. O segredo não está na música, mas no som. Quando tocado com alma, o som do cello é a respiração de Deus”.
(Mstislav Rostropovich)
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Era um charmoso café de quartier, com mesas ao ar livre, onde costumávamos ir ao final do dia para conversar e tomar nossos apéritifs. Mas, desde o segundo dia, aprendemos que era preciso chegar cedo para conseguir um lugar na esplanada, pois todas as mesas ficavam ocupadas antes das seis horas. Logo descobrimos que aquele café-de-esquina guardava mais atrativos, além do seu perfumado café crème e dos croissants barrados com manteiga da Normandia. Havia muito mais a descobrir naquela esquina.
Em nossa primeira visita, ficamos intrigados porque, a certa altura, as pessoas nas mesas voltavam-se para a mansarda do casarão ao lado. Alguns consultavam seus relógios, como que esperando algo marcado para acontecer àquela hora. Até que descobrimos o que os habituées aguardavam com tamanha ansiedade.
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Passavam poucos minutos das seis da tarde, quando uma das janelas francesas da mansarda foi aberta. A seguir, ouviu-se o som inconfundível de um violoncelo muito bem tocado.
Imediatamente, em sinal de respeito se fez um silêncio de cerimônia. Até mesmo os ruídos da rua pareceram diminuir, enquanto os garcons, sem interromper seu serviço, circulavam com cuidado, para não perturbar a música que vinha da janela com esvoaçantes cortinas brancas.
Passados uns 30 minutos, quando o cello silenciou, permaneceu no ar daquele início de noite um imponderável vazio. Parecia que os relógios haviam se imobilizado – e a vida demorando a voltar ao normal. Nos entreolhamos, atônitos, enquanto ao redor as pessoas retornavam lentamente às conversas interrompidas, ao copo esquecido, ao croissant deixado pela metade. Parecia que nada de extraordinário havia acontecido e que o violoncelo da mansarda era parte da vida do quartier, uma dose diária de magia, que as pessoas necessitavam para terminar o dia.
No entanto, ardendo de curiosidade, não resisti e interpelei o garçom que nos servia. Andrei parecia saber de tudo que se passa no quartier e gostava de conversar com os clientes. Ele olhou para as janelas da mansarda, meneou a cabeça com tristeza e nos contou da estória da moça da mansarda, que se vestia de branco para tocar e que um dia foi cellista da Opera de Paris.
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A partir de então, sempre voltávamos ao entardecer àquele café-de-esquina. Para ouvir, cada vez mais encantados, a série completa das Sonatas para Violoncelo, de Johann Sebastian Bach. E enquanto pensávamos na moça de branco, procurávamos ouvir a respiração de Deus.


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