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Nada mais

Antes de começar, devo fazer um severo alerta. Não sou perfeita, tenho ataques de fúria, momentos de estupidez, instantes de ternura, segundos de meiguice, …

Antes de começar, devo fazer um severo alerta. Não sou perfeita, tenho ataques de fúria, momentos de estupidez, instantes de ternura, segundos de meiguice, que a propaganda sempre funciona, coleciono incensos, ímãs de geladeira, acredito em bruxas e gosto de algumas coisas bregas. Logo, sou normal (ah.ah.ah). E, como um ser absolutamente igual aos outros, tenho acalentado um sonho de consumo muito burguês que talvez já tenha revelado em outra coluna. Eu quero uma casa no campo. Sim, onde eu possa escrever muitos textos legais e tenha somente a certeza dos amigos do peito e nada mais.  

Na minha casa no campo, eu ficaria do tamanho da paz, como descreve a composição do Zé Rodrix e Tavito. Não sei como se mede a paz. Boa incógnita. Em centímetros, baldes, pombas, dias, quilômetros, metros cúbicos. Desconheço sua unidade de medida e nem vou perder tempo quando encontrá-la definitivamente. Mas deve ser algo semelhante ao tamanho que fiquei após ler a coluna desta semana do querido Mario de Almeida, em que ele, com seu texto brilhante, discorre sobre a importância dos amigos verdadeiros na vida das pessoas. E, novamente, como também já disse o Mário, uma coluna puxa a outra e cá estou a escrever sobre os meus amigos (pois, pois…meu lado lusitano).

Ao ser inundada de paz, lembrei das meninas da Confraria Ainda sem Nome (metade está em Brasília) e da imensa saudade que estamos sentindo, apesar dos inúmeros emails que trocamos. Na minha casa no campo, claro que teria carneiros e cabras pastando solenes no meu jardim para o descanso das meninas confrades após longas noitadas de muita festa, já que a turma é da pesada. Mas, também teria um imenso galpão, onde a gente iria colocar aquele som das nossas festas do sindicato anos (ah, não vou contar mesmo) ou da Prefeitura, e chamar o Davi para cuidar da luz negra. Delirei….

Calma. O mesmo galpão poderia ser usado pelo meu grande e sempre insuperável amigo Jorge jornalista/sindicalista de mais de 20 anos para as reuniões sobre o que ele desejasse. Que esse é dos lapidados. Para o pessoal da Saudosa Maloca, a minha turma da Famecos que está se reencontrando depois de alguns anos e sabe-se lá o que vai sair dessa reunião, o galpão também serviria para aquelas festas com flores na cabeça, o dedo em V, muita bebida rolando e Engov. É claro que o jardim estaria rodeado de redes para amigas batalhadoras como a Magali, Gracinha, Ione, Lúcia e tantas outras esquecer da vida.

Não poderia de jeito nenhum faltar na minha casa no campo um local decorado para festas juninas, julinas ou agostinas. Com direito a todas as brincadeiras e comilanças. E, por falar em festa junina, quem sabe eu conseguisse trazer, um dia, de Fortaleza a pequena de tamanho e imensa de coração Adri, que até hoje gosta daquela música do Noel Rosa que diz: “nosso amor que eu não esqueço e que teve o seu começo numa festa de São João”. Com certeza, na bagagem de Adri estaria aquela fita com umas músicas muito rebeldes que eu ouvia na sua casa, como a da Joana D”Arc, do Camisa de Vênus (eu avisei…).

A esperança de óculos, outra sugestão da música, eu já tenho. Às vezes, rebela-se e tira o óculos para não enxergar certas crueldades. Mas, não vamos tratar disso hoje. Por favor. Chega das línguas cansadas de tanta maldade. A filha de cuca legal também já está comigo. E meu mundo é sempre para ela. Sem palavras. Sem medir esforços.  Para Gabriela, eu quero plantar e colher com a mão a pimenta e o sal. Para Gabriela, eu quero uma casa no campo, do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé, onde eu possa plantar meus amigos, meus discos e livros e nada mais. E precisa ?

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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