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Nada melhor do que não fazer nada

Os primeiros esboços de frio em Porto Alegre já provocaram mudanças de comportamento nos hábitos dos moradores da capital gaúcha. Parece que o inverno …

Sempre as músicas embalando os meus escritos e emprestando trilha sonora para a minha vida. Pois, Rita Lee, a eterna tia do rock brasileiro, tinha toda a razão quando cantava a música “Mania de Você”, e listava dentro do refrão “nada melhor do que não fazer nada”, algumas maravilhas sensuais de um relacionamento. Mas, como a coluna não deve ser uma prosa pornô-erótica, porque tenho leitores pequeninhos (penso), e faço a minha censura para não afastá-los.  E como depois de vivências com o sexo oposto que me deram muitas dores de cabeça, ando um pouco avessa aos relacionamentos duradouros, usarei o refrão para prazeres mais amenos e pueris.

 Claro que é bom demais (ai, me deu um calor danado) tirar a roupa molhada de suor, de tanto a gente se beijar. Assim como sugere a tia Rita. E imaginar loucuras. Como fazer amor por telepatia no chão, no mar, na lua e na melodia (já não acho tão bom assim este lance carnal). Como diz aquele sábio apresentador (é brincadeira, tá?) dos domingos à tarde: “quem sabe faz ao vivo”.

Mas preciso me fixar em atos mais despretensiosos. Nada ousado ou sugestivo. Como um abraço caloroso e cheio de afeto do afilhado pequeno, Lucas, sempre que vem me visitar. E ato contínuo, adorar de paixão quando ele diz que eu sou muito bonita (querido da dinda), porque criança não mente. Como um café expresso no shopping no domingo à tarde. Como um filme ótimo com a filha na matiné do cinema depois do café. Ou até mesmo bebericar um vinho e conversar com amigas no sábado à noite.

 Nada melhor mesmo do que não fazer nada. Devo concordar com a Ritinha Lee. Nem que seja para ser feliz. Para dormir até mais tarde e acordar para rolar na cama e dormir mais um cinco minutos. Para planejar o ócio do próximo feriado. Para pensar nas férias do veraneio de 2014. Para ler atirada no sofá da sala sem a mínima preocupação com o belo e o estético. Nada melhor mesmo do que não fazer nada. Nem que seja para pensar no descanso do final de semana. Para ouvir seu CD preferido no mais alto volume. Para ver seu time de futebol do coração “causar” no jogo decisivo. Para lagartear. Para comer bergamota no sol. Atos banais que trazem felicidade.

 Sei lá. É possível sim não ter nada para fazer e ainda assim se estar sempre assoberbado de nada para fazer em tão pouco tempo. E sempre ter uma fila de espera para se fazer mais coisa. Tudo ou nada. Se é que consegui me fazer entender. O que importa mesmo é ser feliz de qualquer jeito. Com o lado e o embalo sensual e sexual da música, proposta pela tia Rita. Ou com os pequenos prazeres da minha rotina de nada para fazer que incluem declaração de afetos, propostas de carinhos, cafés trocados, filmes simples e gostosos como “o Casamento do Ano”. Sei lá. Não tenho mesmo nada para fazer. Vou ali ser feliz.

A colunista Márcia Martins está em férias. Este texto foi originalmente publicado em 05/03/2014. 

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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