Claro que eu seria completamente irracional e insensível se, ao completar 458 dias no mais total isolamento, num País que chora a morte de mais de 491 mil vítimas da Covid-19 e com uma política de imunização que começou de forma tardia e desastrada, arriscasse a dizer que a pandemia nos ensinou algumas lições. Não tenho a ilusão de que tudo que foi chamado de normal num Brasil que dia após dia já apresentava sinais de demência, voltará ao que era. O novo normal é mais uma utopia. Nem mesmo carrego a expectativa de que as pessoas sairão mudadas, melhores e mais empáticas depois do caos do Coronavírus.
Mas pequenas transformações decorrentes do confinamento, da convivência de cada pessoa com o seu mundo interior – e do que conheceu neste processo -, da necessidade de planejar as compras de alimentos para períodos mais longos e da exigência de descobrir formas virtuais de trocar carinhos, com certeza, provocaram mudanças positivas. Se elas serão perpetuadas ou não, já é outra indagação a ser respondida com o tempo. Apesar de todo o sofrimento causado pelo distanciamento, pelo tempo trancada em casa, pela urgência de dominar novas tecnologias e uma desesperança crescente, penso que sairei bem melhor.
Precisei, por exemplo, abandonar manias fúteis que eu tinha – e me envergonha agora revelá-las porque contrastam com o sofrimento das famílias enlutadas – que talvez dificilmente voltem a incorporá-las na minha rotina. Necessitei aceitar que nem tudo ocorre no instante em que eu planejara (talvez seja resquício de mimo familiar) e, arrisco afirmar que estou mais acostumada com tais situações. Foi urgente também saber de dores bem maiores que todas que um dia eu já tive – e pensava serem as mais doídas – e ser solidária e ajudar, da forma mais adequada no distanciamento, para devolver um pouco de luz a estas pessoas.
Sou igual a todos, todas e todes que sentem vontade de sair, de se reunir com a família, de confraternizar, de aglomerar, de passear na noite da Cidade Baixa, de bebericar com amigos (as) e aproveitar o sol na Orla do Guaíba. No entanto, um certo grau de responsabilidade que adquiri (ou aperfeiçoei) desde 16 de março de 2020, quando mergulhei no mais restrito isolamento, me impede de colocar a vida de conhecidos e desconhecidos em risco e propiciar a disseminação do vírus. Juro que sonho, toda noite, acordar no dia seguinte e tudo não passar de um pesadelo. Mas o sonho não se concretiza.
Enfim, que notícias me dão dos amigos, que notícias me dão de você? Sei que nada será como antes amanhã. Teremos mudado ou não? Qualquer dia amigas Santa Irene e Michele, minhas companheiras de militância e conselheiras no COMDIM/POA, que faleceram no início de março, a gente se vê novamente. E pelas Santas, Micheles, Joanas, Marias, Fernandos, Celsos, Brunos, Malus, Nicetes e tantos e tantas vítimas da Covid-19, insistiremos nos cuidados e não deixaremos de usar máscaras porque elas ainda podem salvar vidas. Vacina Já.


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