Reclamar do amor que se perdeu, das contas acumuladas para pagar, da chuva que estragou o programa do feriadão, do amigo que já não telefona, das rugas que começam a mudar a fisionomia da face e da velha roupa colorida que não serve mais é senso comum. Dizer que o salário termina muito antes do final do mês, que se demora no trânsito, que os preços dispararam nas prateleiras do supermercado é tão fácil. Desabafar que tudo era bem melhor nos anos 60 ou 70, da tripla jornada feminina, do elevador que demora para chegar é sempre mais confortante. Com tantas queixas, todos desenvolvem um sentimento de pena coletiva e não almejam nada do que se conquistou e nem ficam pensando ou indagando da vida alheia.
É só admitir que tivemos bons momentos com o amor que partiu, que temos contas porque existem recursos correspondentes para quitá-las, que a chuva motivou outras opções de programas e que as rugas trazem a maturidade e o brilho da experiência, para instalar na turma dos menos felizes aquela pontinha indesejada de ciúme, um sinal de preocupação, a tal da inveja. Enfim, tentar ver um pouco o lado positivo das coisas é mais difícil porque pode, eventualmente, acender a luzinha da maldade. Dependendo do grau de inveja, mesmo não admitida, as nossas doses homeopáticas de felicidade podem minguar. Ah, porque um olho gordo vitaminado tem o seu efeito.
Desfilar lamúrias e lamentações dá mais Ibope do que exibir alegria e felicidade. Se você demonstra conviver diariamente com os mesmos problemas que todos os mortais, não chega a causar incômodo. Ato contínuo, o colega de trabalho, o vizinho do prédio ou do lotação até desenvolvem um sentimento de pena solidária e não almejam nada que você conquistou e nem ficam pensando na sua vida.
Mas basta protagonizar alguns minutos de Pollyanna para tudo mudar. É sério. A conformidade com as situações cotidianas que fogem da nossa administração, como os atrasos no trânsito, a disparada dos preços, a defasagem salarial e tantas encrencas, são capazes de gerar sentimentos contraditórios de inveja nos outros. Desencosta exu caveira. Sai desta vida que ela não te pertence. Volta pro mar oferenda. O sangue de Jesus tem poder. Deus é pai, não é padrasto. Namastê.
Como cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, se você decidir, vez ou outra, deixar escapar que goza de momentos de felicidade, que gosta do seu trabalho, que o salário não é tão ruim assim, que a gripe logo vai embora, é aconselhável carregar na bolsa um olho grego. Se você contar para aquele colega com cara de inocente que sua filha não lhe dá trabalho (é linda, maravilhosa e inteligente), que suas noites são de gala e que sentir saudade até que é bom, agarre firme uma figa, tome um banho de sal grosso, reze um Pai Nosso, tome um passe, acenda uma vela para Nosso Senhor do Bomfim. Previna-se porque o mau olhado pode fixar residência na sua vida.
Pensam que estou exagerando? Que estou confundindo focinho de porco com tomada? Pois bem, na maior ingenuidade, comentei com um vivente que havia comprado ingresso para ver um show noite dessas em Porto Alegre. E ele estranhou a escolha, o dia, o fato de eu ir sozinha, o local e tal e tal. Vocês acreditam que simplesmente eu esqueci que o show aconteceria e perdi o espetáculo? Simples assim.
Agora, vou lá ser feliz e já volto. Mas é melhor não contar para ninguém.
A colunista Márcia Martins está em férias. Este texto foi publicado originalmente em 5 de setembro de 2012.

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