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Não existe cura para Paris

Saiu do pequeno apartamento carregando seus blocos de rascunho e vários lápis bem apontados. Entrou no Closerie de Lilas, sentou-se à mesma mesa de …

Saiu do pequeno apartamento carregando seus blocos de rascunho e vários lápis bem apontados. Entrou no Closerie de Lilas, sentou-se à mesma mesa de sempre e pediu um café crème. Ao final do dia, todas as páginas dos blocos estavam cobertas com seus escritos. Releu a última frase e disse para si mesmo – “Isto pode render livro”.

“Se tiveres a felicidade de ter vivido em Paris quando jovem, então, aonde quer que vás pelo resto de tua vida, ela continuará contigo, pois Paris é uma festa que se move.”

Ernest Hemingway saiu do bar, comprou uma garrafa de Sauternes e foi jantar com sua esposa Elizabeth Hadley Richardson. Ele tinha 22 anos, era recém casado, mas já sabia que estava perdidamente apaixonado por Paris.

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Alguns anos antes, as coisas eram diferentes – ele era um simples repórter em Kansas City, a Europa era um sonho distante e a festa móvel ainda não havia começado. Mas, quando chegou a Paris, já estava decidido a ser um grande escritor, como Ezra Pound, John dos Passos e F. Scott Fitzgerald. Ele logo faria parte do grupo que a ironia de Gertrude Stein apelidara de The Lost Generation. Não pretendiam ser um movimento intelectual, eram apenas alguns intelectuais e artistas norte-americanos e britânicos, que viram a guerra de perto e estavam em Paris para escrever ou compor seja lá o que tinham em mente. E Paris lhes concedeu a liberdade que buscavam.

No entanto, Paris cobrou o preço, tornando-os cativos para sempre de seus encantos e mistérios. Eles se tornariam figuras conhecidas no território que começava no Boulevard Montparnasse, nas mesas do Closerie des Lilas, estendendo-se pela Rive Gauche até Saint Germain-des-Pres. Gostavam de comer e beber bem – e muito. Quando alguém do grupo conseguia um adiantamento de seu patrocinador, iam todos celebrar no Café de Medicis, junto aos    Jardins de Luxembourgo. Como anotou Hemingway, eram longos   e festivos almoços, regados por garrafas de Hospice de Beaune de 1915 e arrematados com um bom marc da Borgonha.

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Quando os anos dourados terminaram, o grupo se dispersou e Hemingway regressou para a América. Mas acabava sempre voltando, se hospedando no Ritz, em um quarto com janelas para  a Place Vendome. Muito diferente do minúsculo e barulhento apartamento no número 74 da rue du Carnidal-Lemoine, onde ele viveu com sua primeira esposa, Hadley Richardson. Mais tarde,   em “A Movable Feast”, ele descreveria o lugar como the poorest of addresses.

Chegou a Segunda Guerra e ele foi contratado pela Collier’s como correspondente de guerra, convenientemente sediado em Paris. O famoso Robert Capa chegou a pensar que Hemingway era um general do exército – pois dispunha de ordenança, oficial de relações públicas, cozinheiro, motorista e algo vital em tempos de guerra – uma ração extra de bourbon. O fotógrafo lembra que Hemingway usava o bar do Ritz como local de trabalho. Ali escrevia seus relatos de guerra, bebericando dry martinis, enquanto seu motorista montava guarda do lado de fora, com fuzil ao ombro.

Logo após a guerra, Paris adotou Hemingway como seu habitante honorário. Frequentava as corridas de cavalo no Bois de Boulogne, em Auteuil, bairro onde viveram Victor Hugo, Moliére e Marcel Proust.

Nos dias de corridas, ele se instalava com seus amigos no La Course, onde consultavam os carnês das corridas, enquanto  o garção preparava litros e litros de Bloody Mary. No intervalo entre os páreos, voltavam ao bar e Hemingway encomendava o almoço – Huîtres de Belon, Omelette aux jambon et fine herbes, Endives à la vapeur, fromages de Pont l’Eveque e algumas garrafas de Sancerre gelado.

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Uma parte da fascinante Paris dos anos dourados ainda resiste à modernidade. Como o velho bistrô Au Cliron des Chausseurs, na Rue Norvins, a um canto da Place de Tertre, onde, em seus tempos de repórter, Hemingway gastava os 20 dólares que ganhava por artigo para o Kansas City Star.

Outro favorito era o Harry’s New York Bar, próximo à Opera. Desde que o bar abriu suas portas, ele foi um dos mais assíduos clientes  e costumava rubricar as contas, sem pagá-las. Alguns anos mais tarde, os garções do Harry’s vendiam os pedaços de papel aos turistas, ansiosos por pagar até 200 dólares pelos rabiscos do escritor.

Alguns dos bares e bistrôs frequentados por Hemingway são fáceis de encontrar e hoje fazem parte dos roteiros de turismo. Como Le Trou dans la Mur, no Boulevard des Capucines, ou o Lipp’s, em Saint-Germain, onde ele almoçava com Hadley Richardson. De  1927 em diante, sua companheira nas andanças parisienses passa a ser a editora da Vogue, Pauline Pfeiffer, que seria sua segunda esposa.

Mas, certamente a maneira mais prazeirosa de refazer os passos  do lendário escritor durante os anos dourados de Paris seja pela  leitura de seus livros. “Paris é uma Festa” e “O Sol também se Levanta,” levantam o véu sobre os tormentos, as amizades e as mulheres do mito Hemingway.

Já outros poderiam escolher uma visita ao Closerie des Lilas para um café crème e se imaginar na companhia de Erza Pound, James Joyce e F. Scott Fitzgerald, discutindo sobre guerras, corridas de touros e mulheres. E lembrar que, em uma daquelas mesas de mármore, Ernest Hemingway escreveu grandes livros sobre sua maior paixão – a vida.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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