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Não passo o dia do índio com um. Nem o de finados com um defunto

Como não tem botão de off no meu dia 12 de junho. Como terei que conviver o dia inteiro com aquelas postagens melosas e …

Como não tem botão de off no meu dia 12 de junho. Como terei que conviver o dia inteiro com aquelas postagens melosas e chatas nas redes sociais e na publicidade. Como terei minha paciência constantemente testada nas 24 horas desta data e precisarei segurar a minha vontade de mandar tudo para aquele lugar. Já aviso. Apropriando-me de um dos comentários mais adequados que já passaram pelo Facebook informo: não passo o dia do índio com um, nem o de finados com um defunto e nem o dia das bruxas com uma (exceto a minha própria companhia). Logo, não está nos meus planos presentes ou futuros passar o dia dos namorados com alguém desta espécie.

#Pronto. Falei. Tou leve. Agora posso dar algumas explicações valiosas para a minha decisão. Namorado é legal sim. Não posso negar. Carinhos, abraços, caminhar de mãos juntas (ai, que meigo). Um cinema de vez em quando (desde que as preferências sejam familiares). Um telefonema fora de hora. Uma declaração no meio da tarde. Tudo tem o seu valor. Mas é bom também passear sozinha nas manhãs nos parques de Porto Alegre. É especial demais ocupar todo o lado de cama de casal e se virar e se enrolar, sem ninguém reclamar que a coberta ficou pequena. E coisa espetacular quando o fone não toca no meio daquele programa de televisão para atrapalhar tudo.

Ora, direis. Não ouves mais estrelas? E eu vos direi, no entanto, que muitas vezes eu despertei, no passado, abri as janelas e conversei toda a noite com elas. Mas, como já previa o poeta Olavo Bilac, só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas. Hoje, encontro-me com a caderneta de vacinação totalmente em dia contra pieguices, sonetos de amores correspondidos, sapos fedidos que se transformam em príncipes e abandonam suas consortes de 40 por duas de 20. E depois disso, nojentos voltam a ser sapos e alguns até a coaxar.

E vacinada, acostumada com o fato de viver sozinha, fã de hábitos de uma só pessoa, só posso dizer: sinto muito, Roberto Carlos. Mas o cara que pensa em você toda hora é um chato, sem horizontes e sem vida própria, particular e profissional. E se pensar em me acordar no meio da noite para dizer que me ama, capaz de ouvir um belo desaforo (meu sono tão sagrado…fala sério…com tanta hora para se declarar).

Depois de algumas experiências, no decorrer de minha vida, nem tão bem sucedidas no quesito relacionamento, posso afirmar, com certeza. Antes só do que mal esquartejada. Melhor sem namorado do que morta no final de um crime passional. Antes solteira do que casada com enfeites na cabeça. Melhor sem relacionamento sério no Facebook do que descobrir uma traição virtual. Ah, juro que não é mágoa guardada. É só a realidade. A mesma que nos chama para uma manifestação, nesta quarta-feira, às 12h, na esquina democrática, pelo fim da violência contra as mulheres. Mas isto já é assunto de outra coluna.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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