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Não queira ser a Argentina

Fim de Copa do Mundo de seleções, retorno dos nossos clubes aos gramados e vejo muita gente ter a Argentina como exemplo pelo o que fez no Mundial. Não é bem assim. O futebol de nossos vizinhos enfrenta dores muito piores do que as do Brasil. Há tempos. A diferença está em Messi, que demorou mas conseguiu criar uma identidade com o seu país de nascimento, gerando uma mentalidade vencedora como poucas vezes vimos. Não quer dizer que precisamos imitá-los. Muito pelo contrário.

Para começar, precisamos dizer que nem Messi jogaria com a camisa argentina não fosse uma manobra feita pela federação sul-americana quando ele era um adolescente. Estava quase encaminhado para ir atuar pela Espanha, justamente o rival na decisão da Copa deste ano. Imagina os hermanos sem o seu camisa 10 no Catar e na América do Norte? Duvido chegassem perto da final.

Aliás é exatamente o que veremos daqui para a frente. A despedida do gênio ocorreu em Nova Jersey no último domingo (19), deixando-os órfãos de um craque que com certeza vai demorar para ter um substituto à altura. O fiasco de ter contra si um domínio nunca antes visto de uma equipe sobre a outra na final da Copa foi o último capítulo da sua era. O esquema de jogo terá de ser modificado, as deficiências não serão compensadas por um lance de um único jogador, em momento único das partidas.

Não quero dizer, claro, que a Argentina torna-se fraca. Ao lado de Brasil, Itália e Alemanha provavelmente jamais deixará de ter ciclos de conquistas e favoritismos no futebol, com altos e baixos para se manter no topo. A questão é que o pós-Messi deve causar efeitos negativos para os fanáticos torcedores (esses, sim, deveriam servir de exemplo para nós).

A AFA, correspondente à CBF por lá, é tão ou mais marcada por escândalos do que os nossos dirigentes. Os clubes deles vivem numa pindaíba enorme, tanto que o domínio brasileiro nas competições sul-americanas, especialmente a Libertadores, parece não acabar. Nem nas categorias de base, que sempre revelavam muitos aspirantes a “Messis” e “Maradonas”, a Argentina se dá bem.

Outro argumento usado para copiar o que o vizinho ao nosso sul faz no futebol é a raça deles. Não existe isso. O que eles desenvolveram com as conquistas merecidas da Copa América de 2021 e da Copa do Mundo de 2022, que deram fim a uma seca de décadas sem títulos importantes para eles, foi a resiliência de não desistir, sempre achar que dá. Unindo à presença de Messi, que não vai mais existir, foi o que os levou para as decisões dos Mundiais de 2022 e 2026.

Foi uma fase, que torço que tenha passado para eles, que volte logo o nosso período de vitórias marcantes. Não vamos achar que a Argentina é um modelo, longe disso. O nosso caminho precisa ser corrigido retomando, em primeiro lugar, as nossas referências de aproveitamento de talentos e identidade como seleção. O resto é o resto.

Autor

Rafael Cechin

Jornalista graduado e pós-graduado em gestão estratégica de negócios. Atua há mais de 25 anos no mercado de comunicação, com passagem por duas décadas pelo Grupo RBS, onde ocupou diversas funções na reportagem, produção e apresentação, se tornando gestor de processos e pessoas. Comandou o esporte de GZH, Rádio Gaúcha, ZH e Diário Gaúcho até 2020, quando passou a se dedicar à própria empresa de consultoria. Ocupou também, do início de 2022 ao final de 2023, o cargo de Diretor Executivo de Comunicação no Sport Club Internacional. Atualmente mantém a própria empresa, na qual desde 2021 é sócio da Coletiva,rádio, e é Gerente de jornalismo e esporte da Rádio Guaíba.
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