Eu fico, às vezes e, ultimamente quase sempre, constrangida com o descaso, o medo, o temor e a indiferença que a população motorizada de Porto Alegre revela diante de um cenário que não se varre para baixo do tapete. O crescimento espantoso do número de meninos e meninas, jovens, adultos e idosos que disputam as esquinas da cidade na expectativa de conseguir um trocado, “déreal”, umas moedas para comprar leite ou remédio. E o automóvel zero quilômetro, modelo saído da fábrica, nem abre mais o vidro para ouvir o pedinte. É claro que o carro não anda sozinho. O proprietário dentro do veículo é que comanda e fica rezando para que o verde do sinal apareça e lhe tire daquele cruzamento, o mais rápido possível.
Quem pede, esmola, mendiga, suplica, com certeza, também não faz a menor questão de arder no sol ou pegar chuva e marcar seu ponto na esquina. Se consultados, os meninos e meninas que vagam nas ruas de Porto Alegre aguardando a nossa compaixão, preferiam estar em boas escolas, como os nossos filhos. Os jovens, entorpecidos de loló, responderiam que gostariam de ser médicos, engenheiros, professores universitários, alguma das profissões exercidas pelos que passaram pelas faculdades. E os velhos, com seus cabelos brancos mal cuidados e poucos dentes para sorrir, não negariam a preferência em assistir a uma sessão da tarde, tirar um cochilo e um bom café com leite no final da tarde.
Então, incomodada fica a população que foge dos pedintes nas encruzilhadas de Porto Alegre como o o diabo foge da cruz, e bem mais incomodada, sem dúvida alguma, a crescente população sem educação, sem habitação, sem alimentação, sem teto e sem dinheiro, que precisa viver dos favores dos outros. Eles, crianças como os nossos filhos, sobrinhos, afilhados e netos. Como a gente, que cursou faculdade e batalhou por um emprego. E como os nossos pais, que trabalharam a vida toda para viver de uma aposentadoria meleca (sim, eu disse meleca). O que eles querem? “Migalhas dormidas do teu pão, raspas e restos, pequenas poções de ilusão”, já respondiam Roberto Frejat e Cazuza na música “Maior Abandonado”, em 1984.
Ei, população carente de Porto Alegre (que jamais irá ler minha coluna). Eu fico muito constrangida com a capacidade que a população mais abonada da minha cidade, com seus uísques e perfumes importados, seus carros com cheirinho de novo, suas viagens para Punta, seus R$ 2 mil despejados para comprar uma bolsa da marca Y e seus bichinhos de estimação, tem de não se indignar. Eu fico com vergonha da reação dos socialmente enquadrados. De se sentir coagidos, constrangidos, ameaçados pelos que vagam, dormem, mixam, comem os restos, como cachorros vira-latas, nas esquinas. Eles estão por aí, “sem pai nem mãe, bem na porta da sua casa, estão pedindo a sua mão, e um pouquinho do braço”.
Os cruzamentos de Porto Alegre retratam mundos diferentes e injustos. Estão pintados com as cores obscuras do preconceito, que leva a imaginar que todos os pedintes são assaltantes em potencial, que deveriam estar nas cadeias, que não trabalham porque não querem, que a culpa de tudo é o governo municipal, ou o estadual ou o federal. Ou de que vai gastar a esmola ganha em bebida ou cola para cheirar. Situação fácil encontrar justificativas para embasar a falta de solidariedade. Muito cômodo jogar a culpa nas administrações e instituições. Eu fico indignada com a falta de indignação. Eu fico constrangida com a ausência de constrangimento de quem se omite ou nem mais se indigna.

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