No início, prometia ser um simples passeio. Centenas de leitores de George Simenon já deviam ter percorrido aquele roteiro, de uma ponta a outra. Mas, a incômoda realidade é que a Paris dos anos 20, 30 e 40 não existe mais. Tentar seguir as pegadas de Jules Maigret pelos bistrôts, brasseries e albergues noturnos, exige paciência – e uma imensa dose de imaginação.
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Começamos pelo número 36 do Quai des Orfevres, na Île de la Cité, às margens do Sena, entre a Pont Neuf e a Rue de la Cité. Ali fica o quartel general da Polícia Judicial de Paris, com a escadaria de 148 degraus, que Maigret subia todos os dias para chegar à sua sala, onde havia um fogão de ferro e um piso de linóleo escuro. Eles desapareceram, mas da janela ainda se pode observar os bateaux mouches descendo o rio em direção às comportas de Saint-Denis.
O comissário gostava de explorar ruas e praças. No caminho até seu apartamento no Boulevard Richard Renoir, passava por vários bistrôs e brasseries. Em um ou outro, fazia uma parada para um copo de Calvados ou uma caneca de cerveja. Mas, a especulação imobiliária e os altos aluguéis, acabaram com quase todos eles.
Também decretaram o fim do charme do baixo mundo da Place Pigalle, onde prostitutas e gigolôs conviviam com informantes da polícia. Os velhos cabarets foram substituidos por bares de encontros e sex-shops. E a Rue Saint Denise, onde Maigret passava madrugadas tocaiando seus suspeitos, agora é uma rua de pedestres, onde turistas procuram uma Pigalle que há muito se desvaneceu no tempo.
Mas, nem tudo está perdido – a bela, serena e geométrica Place des Vosges, ainda permanece a mesma. Sob seus arcos se preservam grandes porções da história de Paris. Na casa 6, nasceu Victor Hugo e na casa 8, Theophile Gautier viveu por muitos anos. Mais adiante, no número 21, morou o próprio Simenon, que fez da Place de Vosges o cenário de mais de um de seus romances. Ali, o tempo parece não passar e não é difícil imaginar o comissário caminhando pensativamente entre os gerânios e as sebes bem podadas. Continuando a caminhada, percorremos a Rue des Victoires, cruzando pela parada de ônibus de número 7, até chegar à Place Dauphine, onde ficava a Brasserie Dauphine, eterna provedora de sanduiches e cerveja para os longos plantões no Quai. Mas não sem antes fazer uma escala no número 13 da rue Pont Neuf, na Taverne Henry IV, cujo dono era um grande amigo de Simenon, como parecem atestar as fotografias nas paredes de madeira escurecidas pelo tempo.
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A Paris de George Simenon era uma cidade de grandes contrastes. Em um momento, o sol ilumina as mansardas das mansões do Boulevard Haussmann. No outro, conhecemos uma cidade sombria, marcada por conflitos, confrontos e impasses, desenrolados nas ruas estreitas dos quartiers mal policiados.
Para reencontrar a Paris de Jules Maigret, será preciso deixar de lado os monumentos iluminados e seguir por caminhos ditados pelo instinto de aventuras – ou pelo olfato. O comissário gostava de bistrôs, onde o plat du jour era anunciado em lousas na porta e onde os aromas vindos da cozinha eram o melhor convite para uma honesta e farta refeição. Mas eram raros os pratos de bistrots que o seduziam tanto como a comida camponesa, preparada em casa por Mme. Maigret, como o Jarret de Porc aux Lentilles, seu prato favorito nas noites de inverno.
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Em um raro portrait de seu mais famoso personagem, Simenon escreveu em 1978, quando o comissário Maigret já estava aposentado há 6 anos:
“Jules Maigret é um pequeno burguês que preza a honestidade e a franqueza acima de tudo. Ele ama a comida caseira e talvez seu único prazer seja viver com a simplicidade de um camponês. Ele apenas vai ao cinema conduzido por Mme. Maigret, nunca assiste à TV, não sonha em ter um carro e nem ao menos sabe dirigir”.
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