Teus olhos são tão profundos que neles eu perco a memória
(Louis Aragon)
Numa manhã, lá pelos anos de 1970, meu amigo José Monserrat, então redator da Denison Propaganda, me telefonou precisando falar, com urgência, comigo. Almoçamos.
Ele havia sido convidado para dirigir a Criação da Caio Propaganda, teria uma reunião ainda naquele dia e queria saber de mim o que negociar.
Comecei pelo salário e disse que teria que pedir mais 50% do que ganhava. Ele se assustou, achava que ser Diretor de Criação já era um passo à frente. Argumentei que, caso não pedisse uma remuneração condizente, poderia até ser taxado de trouxa e não ser contratado.
Mon morava
Era o mês de setembro e ele iria receber, ao final do ano, na Denison, um 14º salário. A Caio teria que reembolsar 9/12 do que receberia lá.
Como seu emprego na Denison era seguro, precisaria, também, fazer um contrato de trabalho.
No fim do dia, Mon me telefona:
– Mario, exceto o contrato de trabalho, aceitaram tudo!
– Foi o que imaginei, o contrato era o boi-de-piranha.
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Em 1991, resolvi fazer o livro sobre o Antonio”s e pedi a colaboração de alguns frequentadores assíduos e ilustres.
Fernando Sabino prometeu-me um depoimento e jamais retornou minhas ligações telefônicas. Claro que não insisti.
Mauro Salles deu-me um belo depoimento gravado e enviado de São Paulo. Os escritores Antonio Torres e Fausto Wolf escreveram excelentes artigos e mais um punhado de gente, como Paulo Mendes Campos, Walter Clark, Boni, Agildo Ribeiro, Miéle e Christina Gurjão (ex-esposa de Vinicius) compareceram.
Resolvi pedir um testemunho do Tom Jobim e fui falar com ele na Churrascaria Plataforma, onde fazia ponto.
Colocado o pedido, ele, com toda a simpatia, respondeu:
– Fazer eu faço, Mario, mas você tem que me pressionar.
Quem me conhece sabe que sou incapaz de pressionar alguém para me fazer um favor. Deixei o Tom em paz.
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Antes de ir para a Globo, eu recebia um fee mensal para escrever discursos e palestras do diretor-geral Walter Clark. Depois pediram que eu criasse os anúncios que seriam trabalhados e produzidos pela DPZ. Inda que meio inusitado, acertamos outro fee para aquele trabalho.
Para a corrida de Fórmula 1, 1975, em Interlagos, São Paulo, preparei dois anúncios, um de provocação e outro nos padrões normais.
O primeiro era uma sugestão de uma “dobradinha” brasileira, pois Fittipaldi e José Carlos Pacce eram os nossos pilotos com grandes chances de vitória. Mandei fazer um layout com um prato fumegante da nossa conhecida opção culinária e um título que remetia para a possibilidade de nossa dupla vitória: “Sugestão para domingo: dobradinha à moda da casa”. Magaldi viu, gostou e disse o que eu achava que ele diria:
– Mario, não dá para a Globo entrar na torcida. Esse outro está bom. Mande produzir.
Naquele domingo, a torcida em Interlagos foi ao delírio: Pacce em 1º, Fittipaldi em 2º.
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A jornalista Christina Lyra, hoje também com o Carvalho do Miguel e mais outros diplomas, conheci no início da Fundação Roberto Marinho, onde fui assumir as atividades do Jornalismo, Propaganda e Relações Públicas.
A Fundação cresceu, e Christina, amiga de fé até hoje, encarregou-se de gerenciar a parte do Jornalismo.
Quando nasceu seu primeiro filho, Rodrigo, o marido Miguel e ela receberam os nossos votos: “Para Rodrigo, as aventuras de um certo capitão, a sensibilidade dos tocadores de lira e a dignidade do carvalho”.
Outra vez, eu voltava de férias na Europa com Áurea, e ela iria me passar o bastão e também sair de férias europeias.
Por curiosidade, fiz um cálculo de quanto custava o tempo turístico, ou seja, consumido fora de todas as atividades compulsórias como sono, higiene, etc.
Cheguei à conclusão que custava 1 dólar o minuto, curiosidade que passei para a Chris, como a chamo.
Contou-me ela que numa manhã, em Veneza, o Miguel não queria levantar e ela insistiu:
– Levanta, Miguel, o Mario disse que um minuto custa 1 dólar.
– Deixa eu dormir mais 5 dólares.
Um dia, Chris entrou na minha sala e disse:
– Mario, eu sei que está fora dos nossos parâmetros, mas como prometi à “fulana” que iria falar com você, vou falar.
Era um pedido meio que absurdo e eu respondi:
– Diga para ela que “nem…” – e usei uma expressão grosseira que significa “nem transando”.
Lembrei-me de todos os predicados físicos da postulante, pensei melhor e quando Chris ia saindo, corrigi:
– Diga a ela que “só transando”.
***
O arquiteto Marcos Vasconcellos entra esbaforido no Antonio”s, vê o Mauro Salles no balcão e pergunta:
– Mauro, qual é o seu advogado?
– Depende do crime.
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Pedi uma informação a um negro
Na lata, respondi que eu também não e dei-lhe as costas.
Gostaria de ver a cara do cara, mas daí perderia a teatralidade.
Inté.

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