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Necessidades e desejos – de novo!

Tenho um primo que é gente muito boa. Sua mãe é filha da segunda união de meu avô, o que faz com que entre …

Tenho um primo que é gente muito boa. Sua mãe é filha da segunda união de meu avô, o que faz com que entre nós haja uma considerável diferença de idade.

Há dois meses graduou-se em Direito, passou a ser o Dr. Lucas. É um sujeito incapaz da frase destrutiva, de temperamento afável, não conheço quem dele não goste.

 Torcedor do Porto-Alegrense, é das melhores vítimas de flauta que tenho. Seu time disputa a gloriosa segunda divisão do futebol brasileiro e ele agüenta as gozações com altruísmo.

Mas o que eu queria contar é que o Lucas, quando criança, era pouco chegado às rotinas diárias de asseio. No popular, fugia do banho como petista de vinculação com o Delúbio.

 Lá pelos seus quatro anos, sua mãe, brilhante ginecologista e obstetra, ansiosa por motivá-lo ao contato com o líquido insípido, inodoro e incolor, sentenciou:

– Meu filho, vamos para o banho! Depois vais te sentir muito melhor, perfumado, limpo, cheiroso, não concordas?

Lucas, sem disposição para prolongar aquela lengalenga, respondeu simplesmente:

– Não!

A Maria Isabel, que é a mãe desta curta história, tentara motivar seu filho ao banho supondo que as motivações dele eram iguais às suas.

Pensei nisso ao observar a repercussão da coluna da semana passada. Entre comentários e mensagens, recebi alguns textos que revelavam inconformidade.

O que se afirmou foi que o Marketing não tem a capacidade de gerar necessidades. Tem, no entanto, no caso da necessidade existir, plenas condições para atiçar desejos.

Necessidades são intrínsecas aos seres humanos. Às vezes, eles sequer sabem que as têm, ainda que elas estejam presentes.

Certamente haverá demanda por um cigarro que não seja nocivo à saúde ou para um pneu que não fure. Já para uma escola que ensine javanês, as coisas ficam bem mais complicadas. Ou inviáveis.

O que parece ter incomodado alguns leitores foi uma aparente diminuição do poder do Marketing. Há no imaginário das pessoas uma percepção de que o Marketing tudo pode.

Em momento algum se tentou diminuir a importância do Marketing. Ele tem a capacidade de gerar tendência de consumo, mudar comportamentos e tudo mais. O que não se pode esquecer, no entanto, é que as pessoas movem-se a partir de suas necessidades.

Quando a novela das oito apresenta uma tendência de moda, por exemplo, consumidoras adotam-na porque têm a necessidade de estar no grupo, na tribo. Se tal não ocorre, não há eficácia na ação.

Quanto ao Lucas, cresceu e ficou adepto do banho diário, possivelmente em função de necessidades sociais, mais particularmente, de aproximação com o sexo oposto. Para ele, ficar limpo simplesmente, não tinha significado. Passou a ter em função de novos fatores.

É isso!

Autor

André Arnt

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